terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Menos Estado, mais educação e consciência

É claro que precisamos estar dispostos a ajudar o próximo, só que isso independe de classe social, pois a carência de consciência é geral. A pior miséria é a falta de amor, pois essa gera uma estreiteza de consciência. Não se trata de tirar dos ricos para dar aos pobres, mas de educar para conscientizar afetivamente desde os mais ricos até os mais pobres para o fato de que a criação de mecanismos de solidariedade e educação pode ser auspiciosa e beneficiar a todos.

Se somos contra indivíduos mais ricos explorarem os mais pobres através de mecanismos econômicos coercitivos, também deveríamos por coerência ser contra que mecanismos intervencionistas estatais sejam usados para que os pobres fiquem dependentes do governo recebendo por meios extorsivos legalizados ao invés de solidários e a despeito do que pensem todos os que trabalham e pagam impostos.

Portanto, é inviável ser a favor de um assistencialismo populista que tenha caráter eleitoreiro e infantilize psicologicamente o outro e que ainda por cima se baseie exatamente na mesma lógica perversa e coercitiva que criou o problema, para começo de conversa. Quanto mais o Estado puder se limitar aos direitos universais, priorizando educação, saúde e segurança, e liberar a iniciativa privada para gerar oportunidades e empregos, mais as pessoas podem se capacitar, se responsabilizar e encontrar soluções por si mesmas. Ainda assim, se considerarmos que subsídios sejam necessários como, por exemplo, em casos de extrema pobreza ou outros, então programas sociais em caráter provisório e sob certas condições e exigências podem ser utilizados, desde que tenham tempo determinado. Até porque, é sempre um risco que esse tipo de programas seja manipulado e usado por governos demagógicos ou corrutos. 

Prova disso, é que tais programas seguem sempre uma mesma lógica de criação de castas diferenciadas, baseada em direitos de segunda, terceira e até quarta ordem, e que acaba por favorecer também aos luxos e privilégios dos indecentes bolsas "vossa excelência" distribuídos entre os três poderes, num verdadeiro escárnio público legitimado e perpetrado pelo que há de mais vil e imoral no estatismo assistencialista. Onde aqueles designados para servir, se preocupam muito mais em se servir e tirar proveito da sua posição.

Por isso, ao invés de somente esperarmos e defendermos a coerção estatal entre outras dependências poderíamos nos revestir da necessidade de uma educação para a consciência que poderia vir a ser sempre uma escolha de cada indivíduo num mercado mais liberado e menos regulado por um Estado mínimo, laico e de direito. E que permita o empreendendorismo e possibilite optarmos por dirimir as desigualdades sociais desde a criação de mecanismos solidários, passando por incentivos à educação de base, a capacitação dos indivíduos, até chegarmos a prática da auto-responsabilidade, da autovalorização e consciencialização de cada pessoa, de acordo com as suas possibilidades e relações com a sociedade.

Toda e qualquer tentativa demagógica de coerção indevida e sua legitimação, seja de direita ou de esquerda, deve ser identificada e denunciada, mesmo aquela travestida de boas intenções, "politicamente correta" e disfarçadamente lisonjeira a seus proponentes. Assim podemos ajudar o próximo a ajudar a si mesmo através de um arranjo social mais educativo e menos doutrinário e que nos permita buscar o meio termo ou a equidistância entre a "mão nem tão invisível do mercado" e a "mão excessivamente intervencionista estatal", a fim de construirmos uma comunidade mais ética, íntegra e sustentável, ou seja, uma sociedade economicamente viável, ecologicamente correta, socialmente justa, culturalmente diversa e espiritualmente solidária. 

C.G Jung em seu tempo já antevia e alertava-nos sobre os perigos e semelhanças de apenas deslocarmos a servidão a uma pretensa autoridade divina da religião para o socialismo estatal, continuando a nos eximir de responsabilidades ao invés de tomarmos consciência e assumirmos maior protagonismo e autoria sobre nossas vidas.

"Ainda não se pode ver de modo preciso as consequências que poderiam advir de um conhecimento mais geral a respeito do paralelismo fatal entre a religião eclesiástica e a religião de Estado marxista. A exigência de caráter absoluto, representada pelo homem, da civitas Dei é, infelizmente, muito semelhante à ‘divindade’ do Estado. A consequência moral que um INÁCIO DE LOIOLA deduz da autoridade da Igreja (‘o fim santifica os meios’) antecipa a mentira como instrumento político do Estado, de maneira muito perigosa. Tanto um como outro propiciam, por fim, a submissão incondicional à fé, restringindo, portanto, a liberdade do homem perante Deus e diante do Estado, cavando a sepultura do indivíduo. A existência esmagada desse único portador de vida que conhecemos se vê ameaçada por todos os lados, apesar da promessa de uma existência ideal." (Carl Gustav Jung - Presente e futuro)

Jung talvez tenha profetizado sobre o Brasil atual sem saber... Aqui o Estado divinizado pode tudo e o povo nada. E se reclamar, é golpe! Viva a "burocracia" em nome da democracia! O Estado pode cobrar impostos abusivos sobre serviços que não presta contas, pode praticar pedaladas fiscais, atrasar salários de servidores, se favorecer com luxos e privilégios, pode tirar coercitivamente de uns para dar a outros, pode se eleger com caixa dois e mentiras, pode até comprar artistas simpáticos a sua causa e patrocinar movimentos sindicais e sociais para usá-los como tropa de choque e massa de manobra. Também pode insuflar luta de classes, roubar, dilapidar, corromper, ser corrompido, vender o país para banqueiros, construtoras e elite corporativa "amiga". Pode até decretar crime ambiental como tragédia natural... Enfim, ao Estado tudo é permitido, inclusive vender a alma da nação para o "demo" se for o caso e fazer o diabo a quatro perante o impávido colosso.

E ainda assim terá defensores ferrenhos entre os seus devotos mais fiéis, satisfeitos que parecem estar em trabalhar quatro meses no ano só para sustentá-lo, inclusive os luxos de seus representantes. Também angariará defensores entre os intelectuais e acadêmicos que dissimuladamente simpatizam com a "coerção" sempre que essa favoreça as suas ideologias; assim como, brigarão pelo Estado todos àqueles que não querem a auto-responsabilidade, preferindo a malandragem do "herói sem caráter" encrustada no imaginário coletivo brasileiro, bem como, a manutenção do "infantilismo" existencial irresponsável, de todos os que querem permanecer deitados em berço esplêndido, mamando feito bebezões no Estado e esperneando feito crianças contrariadas em protestos, fechando ruas e cidades inteiras até serem atendidas, mesmo que em detrimento ao direito de mobilidade de outras pessoas.

Assim fica difícil superarmos a cultura escravocrata que assola o Brasil desde a sua fundação, pois existe uma licenciosa simpatia inconsciente via devoção ou vitimismo que muitos nutrem diante do senhorio, manifestas pela aprovação ou submissão a práticas coercitivas, seja de direita ou de esquerda, e que contribuem para uma perpetua e maliciosa infantilização das massas.

Portanto, quanto mais apelamos ao Estado, pior fica e a deterioração da economia é apenas um sintoma disto, do nosso endividamento inconsciente; do quanto temos sido coniventes como um Estado que trata o povo como incapaz, tirando-lhe a dignidade e alimentando o seu coitadismo. E nos massificamos na mesma medida em que acatamos passiva ou apenas reativamente: a mentira, a demagogia, a coerção, a injustiça, a burocratização e a corrupção, em nos desresponsabilizando perante a nossa própria vida. 

O contrário disso seria então admitirmos a necessidade de desenvolvermos tanto conhecimentos, quanto o "autoconhecimento", reconhecendo a centralidade das emoções em nossos saberes e fazeres, e priorizar desde uma educação de base até uma educação para a vida inteira, uma educação para a consciência.