quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Entre psicoterapia e espiritualidade: uma jornada interior do ego rumo à Essência

O ocidente e o oriente se encontram em nossos corações e mentes quando levamos em conta a essência das grandes tradições espirituais da humanidade e que talvez possa ser muito bem resumida pela chamada "regra de ouro" de todas as religiões que nos diz o seguinte: "fazei aos outros o que gostaria que vos fizessem". 


Esse ensinamento central enseja uma relação de interdependência e interligação entre todos os seres, pois, como diria o monge vietnamita Thich Nhat Hanh: "intersomos". Isso nos leva ao desafio do aprendizado ético na relação com outrem e ao desenvolvimento de uma capacidade psicológica, afetiva e empática cada vez mais ampla e consciente para o amor, para a sabedoria e para a compaixão.

Na Grécia antiga, por exemplo, Aristóteles ensinava que a ética ou a excelência moral seria resultante da prática de hábitos e virtudes associadas a uma justa medida ou a razão proporcional entre a emoção e a ação. Para ele, então, os afetos, os sentimentos e as emoções desempenhariam uma função tão importante quanto a razão em nosso desenvolvimento moral e ético. 

Isso implica dizer que a égide da razão e os conhecimentos dela decorrentes não são suficientes na formação educativa da pessoa humana e que a evolução moral e ética dos membros de uma sociedade depende também da educação de suas emoções, da regulação afetiva de seus estados interiores, de seus valores internos e, portanto, de seu autoconhecimento. 


Podemos entender a dimensão de valores de uma pessoa como sinônimo de sua cosmovisão ou espiritualidade e, portanto, relaciona-se também a uma dimensão psicológica de interioridade e consciência. Assim desenvolver a espiritualidade é o mesmo que buscar o autoconhecimento ou a autoconsciência. Em suma, a espiritualidade tem uma relação íntima com os valores humanos e os diferentes níveis de ser-estar no mundo ou cosmovisões. E esse é outro aspecto ou compreensão da essência das grandes tradições da humanidade, a ideia de um multinivelamento ontológico, também conhecido como a "grande cadeia do ser".

Ocorre que esses diferentes níveis podem estar tão amalgamados que se você escutar um budista falando sobre a importância do silêncio e da não-dualidade ou um professor de yoga ou meditação falando sobre o foco no momento presente, você pode passar a pensar que todo o trabalho psicológico é perda de tempo ou que isso está em oposição a trabalhar o passado em terapia, ou integrar a sombra como nos fala Jung ou até acessar estados transpessoais de consciência e assim sucessivamente. 

Veja que esses dias mesmo escutava a palestra de um lama budista em que ele afirmava que um de seus seguidores andava em dúvida entre a Psicologia ou o Budismo devido a alguns choques conflitantes entre as suas diferentes filosofias e que se fosse esse o caso, ele o aconselhava a escolher o Budismo. Entretanto, a letrinha "e" faria milagres nessa situação ao invés de "ou". Afinal, não é preciso escolher entre a Psicologia ou o Budismo, pois você pode aprender com os dois e, na verdade, considerando o que tenho visto por aí de ambas as partes, creio que seria o mais recomendável, principalmente, se observarmos que a maioria dos adeptos de uma área ou outra tende a cair em contradições e ignorar algum aspecto importante da jornada evolutiva ou recair em alguma retórica discursiva de embate entre o absoluto e o relativo.

Um exemplo disso é a resposta de um renomado guru ou yogue americano sobre a relegada e esquecida importância do exercício do perdão no caminho espiritual em que ele responde que essa era uma questão desnecessária pois em última instância não haveria quem ou o que perdoar. O que é um típico exemplo da falácia absoluto versus relativo e de negação do lado sombrio da personalidade relativa a partir do uso de um subterfúgio absolutista para recair numa espécie de inércia pseudo-iluminada.

Por isso tenho afirmado seguidamente que tanto a espiritualidade quanto a meditação ou outras práticas podem ser usadas para despertar a consciência ou para aliená-la num certo sentido, principalmente, quando seus praticantes ignoram a necessidade de um trabalho psicológico mais sistemático com o chamado lado sombra. Como diz o professor de meditação Jack Kornfield "não existe aposentadoria iluminada".

Dizer, por exemplo, num rompante de romantismo espiritual ou chamariz de autoajuda como fazem alguns adeptos de certas tradições que uma base comum a todos é a busca da felicidade é muito bonito e inspirador, o problema é negligenciar que o lado sombrio em cada um tem intenções radicalmente contrárias a essa e que embora a pessoa de modo consciente possa aspirar que isso seja dessa forma, seu inconsciente pode ter várias vozes internas com intenções completamente dissonantes. E que precisam ser consideradas, reveladas, saindo da sombra, ou então irão sabotar nossas melhores intenções e realizações, inclusive quando fora do ambiente meditativo protegido e retirante, voltando ao mundo relativo relacional e de conflitos de polaridades.

Também falar tanto sobre o silêncio, essa ênfase na quietude pode soar contraditório quando se faz longos discursos a respeito e se negligencia outras facetas de nossa caminhada espiritual como percebo em algumas correntes espirituais mais tradicionalistas. Ou seja, o silêncio por si só não se basta. Se bastasse, não se precisaria falar tanto dele. Claro que é necessário falar do silêncio bem como praticá-lo e concordo plenamente com esse ponto. Apoio inclusive quando Sri Aurobindo afirma que "se pensar é uma dádiva, não-pensar é uma dádiva maior ainda", e no entanto, como ele também afirma, nada disso exclui a necessidade de que também é preciso falar sobre aquilo que criamos quando não estamos silentes a partir do que intencionamos, pensamos, sentimos e fazemos. Em outros termos, entre o eu e o não-eu existem muitos eus que negamos e que nos influenciam.

"Em um certo sentido, nós não somos mais que uma massa complexa de hábitos mentais, nervosos e físicos, unidos por umas poucas idéias, desejos e associações reguladores – um amálgama de muitas pequenas forças auto-repetidoras com algumas poucas vibrações maiores." (Aurobindo in Satprem, Sri Aurobindo, ou a Aventura da Consciência)

Mas será que seria preciso integralizar toda essa massa de eus ou pequenas forças repetidoras? Diria que não necessariamente, pois esses milhares de eus participam de uma simbiose inconsciente estando todos interligados a alguns determinados padrões de comportamento que afetam nossas vidas de modo dramático. Então, trabalhar na transformação desses padrões de condicionamento também é uma necessidade existencial para além de uma suposta iluminação espiritual. E, por isso, a atenção plena, a escuta sensível e o silêncio podem e devem ser exercitadas tanto no modo ativo, quanto passivo através de práticas como a psicoterapia, a regressão e a meditação, entre outras. E é aqui que ocidente e oriente se encontram, onde o trabalho psicológico e a essência da grandes tradições se cruzam e se complementam, se tornando indispensáveis.

"Nós podemos obter talvez um relativo silêncio, mas no momento em que colocamos o pé fora da sala (de meditação) ou de nosso retiro, caímos de novo em nosso habitual clamor e isso significa novamente a eterna separação do dentro e fora, da vida interior e da vida no mundo. (...) Necessitamos de uma vida completa a cada momento, não apenas nas férias ou na reclusão, e para isso, a meditação tradicional não é a solução. (...) A única solução é praticar o silencio da mente lá onde aparentemente é mais difícil, isto é, na rua, no metrô, no trabalho e em todo lugar." (Aurobindo in Satprem, Sri Aurobindo, ou a Aventura da Consciência)

Sidharta Gautama, o Buda Iluminado de modo distinto a muitos de seus seguidores enfatizava o não-eu mas sem ignorar os muitos eus por detrás da nossa personalidade e ego. Tampouco eximia-se de encarar o mal ou o lado escuro do ser humano. Parte de seu processo de iluminação segundo descreve envolveu justamente o enfrentamento e liberação desses eus e do mal, conforme pode ser conferido em Futher Dialogues of the Buddha que foi traduzido para o inglês por Lord Chalmers.

Muito embora os proponentes de uma área ou outra da busca pelo autoconhecimento tenham a tendência a enfatizar mais um desses aspectos referidos ou outro da caminhada espiritual, o que pode ser considerado esperado e até natural dado as inclinações e trajetórias de cada buscador, há um grande número de adeptos de ambos os lados que tende mesmo é a negligenciar o outro, não reconhecendo que a complexidade do ser humano exige uma complementariedade de abordagens na busca espiritual, do mesmo modo que na área da saúde não há um profissional que dê conta de tudo. 

É claro que existem trabalhos que podem se contrapor, divergir entre si, mas há outros que podem se complementar e seria muito mais bonito de ser ver se houvesse mais humildade de todos os envolvidos para admitir isso e reconhecer limites, possibilidades e a necessidade de se intercambiar vivências, saberes e conhecimentos ao invés de se capturar subjetividades, subvertê-las a uma tradição, doutrina, religião e assim institucionalizá-las, a fim de angariar mais e mais seguidores, ao invés de incentivar o despertar do líder que há em cada ser.

Esse é um problema quando as pessoas passam a acreditar que a sua religião, filosofia, tradição ou representantes, mestres, gurus, monges, padres, terapeutas, curadores, psicólogos, médicos ou sacerdotes possam dar conta de todas as respostas e dilemas existenciais e espirituais. Não acredito que alguém possa dar conta de tudo, embora alguns pareçam ter resposta para tudo e ofereçam o seu caminho como o certo ou como aquele que dá conta. A verdade é que tem sido difícil encontrar àqueles que admitam o quanto é inviável dar conta de todo esse espectro de desenvolvimento da consciência, psicológico e mesmo espiritual, tendo em vista que o proselitismo é o mais comum.

Por isso não raro vemos seguidores fragilizados psicologicamente deslumbrados espiritualmente com mestres, gurus, médiuns, terapeutas, canalizadores e curandeiros, um fazendo mais sombra para o outro e uma imensa sombra de adeptos não trabalhada colada "à sombra do guru iluminado" ou do "líder espiritual centralizador". Ninguém está livre dessa armadilha, nem estou falando como alguém acima disso ou isento, toda a comunidade formada em torno de um objetivo em comum precisa estar vigilante e atenta a esse respeito, pois a sombra institucional ou comunitária é sempre maior e mais densa, na medida em que é a soma advinda do lado sombrio de todos os seus membros e lideranças, considerando que a tendência da maioria é regularmente não querer olhar, nem reconhecer essa sombra, seja em si, muito menos em quem admira ou até idolatra em muitos casos.

Assim também se tornou corriqueiro vermos muitos buscadores espirituais terem extrema dificuldade em suportar encarar o seu lado obscuro preferindo se polarizar no pensamento positivo, numa psicologia positiva, na imaginação de luzes e cores e em mensagens consoladoras ou mistificadoras e generalizadoras vindas de alguma fonte espiritual ou espécie de guia sem a suspeita de que forças arquetípicas sombrias em si e em outros podem fazer uso desses canais muito facilmente apresentando-se como entidades benfeitoras e ilusionistas. Esses mecanismos, às vezes, são muito sutis e geralmente estão associados ao fato da pessoa desejar acreditar apenas naquilo que tenha relação a uma espiritualidade "adocicada". Diria que grande parte das pessoas e de movimentos humanos, religiosos e espiritualistas está enredada em maior ou menor grau na negação de sua sombra, buscando uma felicidade maníaca, idealizada ou polarizada.

O difícil nesses casos é que a pessoa se escora nos aspectos inspiradores e mensagens edificantes advindas dessas fontes para simplesmente não olhar para o seu lado escuro, afinal existe sempre a desculpa de que ele é ruim, negativo, malévolo. Assim muitos não resistem aos bons encantadores de platéia e aos ilusionismos de adoração a mestres, gurus, curadores, terapeutas, canalizadores, etc. Discernir quem é quem nesse meio certamente não é tarefa fácil, mas a ingenuidade da maioria salta aos olhos. A verdade é que evoluir dá muito mais trabalho do que muitos gostariam de admitir, e é simplesmente complicado se tornar um ser humano mais pleno, íntegro, pois é preciso extrair a simplicidade da complexidade para exercitar a presença que nos conecta ao aqui e o agora.

Por outro lado, simplicidade não implica em reducionismo, valendo então alertar para o fato de que existem métodos de meditação modernos e ocidentalizados que obliteram a espiritualidade e preconizam uma atenção apenas corporalizada e muito centrada na técnica e não necessariamente em ensinamentos ou no treinamento de virtudes de modo que a essência das tradições espirituais da humanidade é desconsiderada e obviamente o trabalho com o lado sombra ignorado. Isso sempre pode recair numa tentadora e perigosa forma de alienação ou escapismo meditativo. Tudo óbvio, depende da orientação, depende de instrutores e praticantes, mas marketing ostensivo associado ao reducionismo às biociências e a meditação sendo vendida e servindo a algum tipo de utilitarismo me parece ser uma combinação limitante e, por ventura, até danosa. Mais uma nova versão ocidental de materialismo espiritual, tipicamente, como já fora feito outrora com a yoga que acabou sendo convertida tão somente em atividade física, desvinculada de outros ensinamentos. 

Tenho defendido em contrapartida que a psicoterapia, a regressão e a meditação são formas complementares de desenvolvimento da atenção plena, de uma consciência presente ou autoconsciência que surge a partir dessa combinação multinível e integralizadora que pode também demandar outros tipos de práticas que possam vir a se coadunar. 

Portanto, a psicoterapia, a regressão e a meditação podem ser utilizadas como práticas para exercitarmos o presenciamento, constituindo um trabalho que tem como objetivo conciliar a terapia ao meditar e a revivência transpessoal enquanto modos de descondicionamento psicológico e de exercício da plena presença na vida diária em prol da transformação integral do ser e da conexão com a essência existente em cada um que subjaz encoberta pela nossa falta de contato com a nossa natureza inconsciente tanto em seus domínios inferiores ou subconscientes, quanto superiores ou supraconscientes.


"Essa consciência e esse domínio são sumamente importantes, pois o subconsciente é o Inconsciente no processo de tornar-se consciente; é o esteio e até mesmo a raiz das partes inferiores do nosso ser e dos movimentos dessas partes. Sustenta e reforça todas as coisas que, em nós, aferram-se ao estado atual e recusam-se a mudar - as mecânicas recorrências de pensamentos obtusos, a persistência obstinada de certos sentimentos, sensações, impulsos e propensões, a rigidez descontrolada do nosso caráter. O animal em nós - também o infernal -   tem a sua toca, o seu esconderijo, na densa selva da subconsciência. Penetrar nessa selva, iluminá-la e dominá-la, são requisitos indispensáveis para perfeição de qualquer vida superior, para a transformação integral da natureza." (Sri Aurobindo, The Life Divine, pgs. 734 e 735)

Então, para exercitar a presença integral é preciso conciliar o passado e o futuro ao presente. O subconsciente e o supraconsciente ao consciente. É preciso integrar o corpo, a mente e o espírito. O físico, o emocional, o mental ao espiritual. Integrar o organismo biológico, às emoções, os pensamentos, ao silêncio, ao amor que unifica todas as polaridades, ao não-dual, ao Mistério. É preciso, afinal de contas, integrar o bem e o mal, o interior e o exterior, o lado luz ao lado sombra, a ação e a não-ação, abrindo espaço para a Essência nos corações e mentes de cada um de nós e em direção ao servir e a modos de vida mais genuínos, autênticos e transformadores.



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