segunda-feira, 18 de maio de 2015

Integrando a sombra: a difícil arte da inteireza


Segundo alegoria do sufismo, antiga tradição de sabedoria do oriente médio, conta-se que um homem sábio e astuto certa vez descobriu um valioso tesouro enterrado num túmulo do antigo Egito depois de muitos peregrinos e exploradores terem procurado durante um longo tempo sem encontrar. Todos até então seguiam o ponto indicado pela mão de uma figura esculpida em pedra e o que ninguém se dera conta antes é que era a sombra da mão da figura que indicava o lugar correto.

Nas filosofias religiosas orientais vamos contemplar essa mesma mensagem positiva sobre a sombra no simbolismo da “flor de lótus” nascida em todo o seu esplendor em terreno lamacento, bem em meio ao lodo. Sem ser prejudicada pela lama negrejante de onde brota, ao contrário, dela se utiliza para crescer, nos inspirando a olhar seu exemplo e reconhecer que mesmo em meio aos lugares mais improváveis e obscuros, algo puro e belo pode brotar de nós, nos possibilitando o crescimento.

“Embora sejamos levados a pensar que a sombra contenha apenas escuridão, conforme afirma Jung sua essência é ‘puro ouro’.” (Connie Zweig e Jeremiah Abrams [orgs.] em Ao Encontro da Sombra)

Aliás, para C.G Jung a sombra seria um núcleo inconsciente daquilo que foi reprimido ou herdado do passado, incluindo tendências, imagens, emoções, desejos, memórias e vivências que podem ser considerados incompatíveis e contrários aos padrões sociais, ou ainda, aquilo que consideramos primitivo ou inferior, bem como, o que negligenciamos, podendo nesse sentido também ser fonte de vitalidade, assertividade e criatividade.

Paralelamente, a título de curiosidade, vamos encontrar nos dicionários um conceito de sombra descrito mais do ponto de vista físico: como região escura formada pela ausência parcial da luz, proporcionada pela existência de um obstáculo, ou ainda, pela interceptação da luz por algum tipo de corpo opaco, que é sinônimo do que é denso, lúgubre, obscuro, maculado, pusilânime, lúrido, oculto. O interessante é que a sombra pode mudar de posição conforme a origem da luz e teria natureza ilusória, pois resultaria tão somente da ausência da luz, cumprindo função de fazer contraste.

Assim a sombra nos proporciona a experiência da dualidade tanto em termos físicos, quanto psicológicos e porque não dizer, espirituais. Tudo o que é criado lança uma sombra, pois vivemos uma dialética existencial. E não existiria a experiência (ou a noção) de luz sem sombra, de bem sem mal, de alto sem baixo, e assim por diante; sendo inútil querer ignorar a interdependência desses aspectos.

Inclusive de acordo com preceito encontrado em várias tradições de sabedoria de que “assim como é o macrocosmos é o microcosmos”, o Universo, de modo similar ao ser humano, também tem um lado escuro. Essa faceta misteriosa do Cosmos só pode ser constatada de modo indireto, pois ninguém sabe ao certo o que é, mas a sua existência verifica-se pelo fato das galáxias se manterem juntas gravitacionalmente na escuridade do espaço. Entre as inúmeras hipóteses, a mais aceita atualmente nos círculos científicos é de que 73% do Universo é composto de energia escura, 23% de matéria escura e somente 4% de matéria visível, composta por galáxias, planetas, estrelas, nós, etc. Em suma, 96% do Universo é constituído por uma enigmática escuridão.

Isso dá o que pensar e nos remete ao análogo da vastidão do inconsciente, daquilo que ainda é oculto de nós, ou desconhecido, num espaço de interface entre a cosmogonia e a ontologia.

Nesse preâmbulo ontológico do ser ao vir-a-ser, bendita sombra essa que contém por nós todas as nossas negatividades, tudo o que negamos, tudo o que não queremos ver em nós mesmos, nem sentir, cada pedacinho de desamor, de auto repulsa, todo o mal que ignoramos, nos polarizando, até estarmos dispostos a uma profunda revisão de consciência e ao gradativo acolhimento do nosso lado escuro.  

Portanto, nós seres humanos num certo sentido também somos carentes e sofremos pela falta de aceitação da nossa própria sombra, pois sem ela vivemos divididos, incompletos, dissonantes, como antípodas de nós mesmos. Sem a sombra que dá relevo a nossa luz, abdicamos de nossa inteireza, pois negar a sombra, é também negar a si a possibilidade de uma luz ampliada pela lucidez transfigurativa que advém da integração do conflito dos opostos dentro de nós. Essa contraposição sombria tem influência sobre as nossas vidas, quer queiramos ou não, atuando como parte constituinte e necessária ao nosso crescimento, sendo tudo aquilo em nós e na nossa natureza profunda, até inferior ou primitiva que se opõe ao amor e que ao ser transformado, como na analogia da flor de lótus nascida na lama, pode se tornar amor.

Assim, a jornada de autodescoberta rumo à inteireza se dá quando corajosamente aceitamos sentir, mesmo o que é negativo à primeira vista, para poder transformar e crescer. É quando reconhecemos que há sempre uma mensagem sagrada a ser lida nas dificuldades pessoais, nas relações, nos problemas, nas doenças e nas crises inerentes a nossa condição existencial e que nos oferecem a oportunidade de mudanças e crescimento no amor.

Aceitar a sombra é admitir com honestidade o negativo em nós e abrir espaço a inteireza, a integração dos opostos em nosso interior que concilia a fragmentação do nosso ser e expande nossa consciência, aumentando a nossa sabedoria e a nossa capacidade de amar, incluir e solidarizar.

No coração da sombra existe a luz. E no coração da luz existe a sombra. A experiência do ser é a experiência do círculo que mantém os dois juntos.(…) Tornar-se adulto é passar da idade dos contrários para a idade do complementar, para um outro modo de olhar as coisas. (…) Se em vez de rejeitar ou negar alguns elementos de minha vida obscura, sou capaz de acolhê-los, torna-me-ei mais inteiro.” (Jean Yves Leloup em Além da Luz e da Sombra)

Em contrapartida, quanto mais a negamos a sombra, mais retroalimentamos nossas profundas carências e desarranjos mentais e emocionais que carregamos num nível inconsciente, nossas psicopatologias, que impressas no corpo, tornam-se doenças e manifestas na vida, atraem infortúnios ou nos mantém débeis para enfrentar as adversidades.

Pelo que percebo em geral a dificuldade de aceitação da sombra decorre da não aceitação do mal na vida como uma responsabilidade também pessoal, daquilo que tendemos a ver fora e a não reconhecer dentro de nós.

“Se entendemos então que o mal habita a natureza humana independentemente da nossa vontade e que ele não pode ser evitado, o mal entra na cena psicológica como o lado oposto e inevitável do bem. Essa compreensão nos leva de imediato ao dualismo que, de maneira inconsciente, se encontra prefigurado na cisão política do mundo e na dissociação do homem moderno.” (C.G. Jung em Presente e Futuro)

Tenho acompanhado ao longo desses anos o quanto é difícil para as pessoas de maneira geral, até mesmo aquelas que se dizem mais espiritualizadas, o confronto com as suas sombras. Impressiona como almejam evoluir sem um trabalho sério, sistemático e mais aprofundado a esse respeito e como podem cair fácil em armadilhas sombrias sem sequer se darem conta, acreditando estarem muito avançadas ou bem resolvidas em seu caminho espiritual, de luz, de cura, ou como queiram chamar.

Quando dotadas de intelecto privilegiado então, nem se fala, mais sofisticados podem ser seus modos de defesa e auto-engano. “Quanto mais inteligente e culto for alguém, tanto mais refinado é o modo que emprega para mentir a si mesmo.” (C.G. Jung em Desenvolvimento da Personalidade)

Mais preocupante ainda na busca espiritual é quando as pessoas se imaginam isentas e protegidas da sombra pelo fato de estarem seguindo algum tipo de tradição, linhagem, mestres, gurus, metodologias da moda, instituições famosas, personalidades ilustres, movimentos eco-politicamente corretos, comunidades nova era, etc., como se isso por si só lhes desse alguma garantia, imunidade ou salvo-conduto contra o lado sombrio. É justamente o oposto, onde há mais busca pela luz, sempre vai haver mais sombra a ser trabalhada e nem sempre nesses lugares, conforme seguidamente pode-se constatar, vai haver a disposição, a orientação ou até o suporte apropriado para um trabalho integrativo das sombras de cada um.

Ocorre que muitas vezes as pessoas buscam a espiritualidade, o autoconhecimento ou a cura de maneira ingênua, deslumbrada ou idealizada demais sem perceberem os muitos perigos e as armadilhas em que podem estar se metendo em sua ânsia e imediatismo por soluções. Muitos têm altas pretensões mas pouca disposição para o esforço (ou para aprender a discernir entre o esforço e o não-esforço). A maioria quer a luz sem ter de se comprometer em encarar a sombra. O que resulta disso é uma sombra que vai vir disfarçada de luz para agradar, num envolvente simulacro de luz, um ardil, uma luz ilusória, idílica, mistificada, adulterada pela insistente tendência que temos ao auto-engano. 

Alguns relatos no livro Ao Encontro da Sombra de Connie Zweig e Jeremiah Abrams (orgs.) são orientadores nesse sentido e exemplificam bem o observado acima. De modo equilibrado, sem invalidar os méritos dos movimentos abordados ou de seus proponentes, essa obra retrata várias facetas sombrias da busca espiritual inclusive no ponto de intersecção entre o oriente e o ocidente naquilo que muitas vezes é negado ou passa despercebido por muitos de seus adeptos.

Se no ocidente o uso excessivo da razão trouxe-nos a tendência a polarizar a realidade, no oriente, há certa tendência a se minimizar a importância do trabalho psicológico de base em prol de uma via contemplativa mais direta para além das polaridades. Tanto a tendência ao racional típica no ocidente, quanto a tendência mais contemplativa típica no oriente, bem como, seus entrecruzamentos mais contemporâneos tendem a subestimar e a querer escamotear o lado sombra.

Em todos esses casos a sombra reclama consideração e sempre apronta poucas e boas para estupefação dos implicados. Afinal, a dimensão racional é necessária, mas insuficiente, pois podemos usar essa mesma razão para justificarmos nossas negações, nosso desamor, nossas desumanidades, nossas cegueiras. Já uma via direta para a não-dualidade pode ser uma pretensão muito justa, nobre e elevada, mas sem as conversões afetivas da sombra, também pode resultar dentre outros problemas numa queda das “alturas” que se não invalida a “realização”, pode vir a macular dramaticamente o seu compartilhamento, causando enormes estragos individuais e coletivos, não raro, devido a dissociação entre o trabalho psicológico que inclui a personalidade (e seus personalismos e idiossincrasias) e a busca espiritual que deveria ter por meta transcender esses aspectos e não vilipendiá-los.  

Pois se a razão divide para conhecer e a contemplação abre espaço ao não-dual, o sentir interliga e o amor une, integra. Todas são funções indispensáveis para o nosso crescimento genuíno e exigem múltiplos modos de desenvolvimento.

Somos seres complexos e evoluir demanda muito trabalho, não há caminho fácil para o nosso aprendizado e quando houver, devemos desconfiar… Pode ser a sombra nos espreitando em mais uma de suas muitas artimanhas sedutoras.

“As pessoas (com o auxílio de convenções) resolveram tudo de maneira mais fácil e pelo lado mais fácil da facilidade; contudo é evidente que precisamos nos aferrar ao que é difícil; tudo o que vive se aferra ao difícil, tudo na natureza cresce e se defende a seu modo e se constitui em algo próprio a partir de si, procurando existir a qualquer preço e contra toda resistência. (…) Amar também é bom: pois o amor é difícil. (…) talvez seja a coisa mais difícil que nos foi dada, a mais extrema, a derradeira prova e provação, o trabalho para o qual qualquer outro trabalho é apenas uma preparação.” (Rainer Maria Rilke em Cartas a Um Jovem Poeta)

Quanto mais aceitamos nossas negatividades encarando suas lições, mais nos oportunizamos transformá-las em sabedoria amorosa. A cada etapa, mais amor. A cada estágio, maiores podem ser os obstáculos, pois entre luzes e sombras que se sucedem numa espiral de possibilidades desafiadoras está a graça de vivermos a vida com dignidade. Não fosse assim, seria o tédio, a monotonia e viveríamos inertes, petrificados enquanto a vida é fluxo e movimento. Por isso amar é também estar aberto ao aprendizado nas relações, a modos de exercitarmos a sabedoria, a compaixão e o próprio amor que só se aprende amando, corajosamente amando, na iniciativa do amor que inclui o aclarar de toda e qualquer tendência a espera, a recusa, a oposição ou a desistência de amar que trazemos conosco devido aos nossos condicionamentos passados. Amar, portanto, dá trabalho e é responsabilidade crescente.

“(…) O amor custa caro e nunca deveríamos tentar torná-lo barato. Nossas más qualidades, nosso egoísmo, nossa covardia, nossa esperteza mundana, nossa ambição, tudo isso quer persuadir-nos a não levar a sério o amor. Mas o amor só nos recompensará se o levarmos a sério.” (C.G. Jung em Civilização em Transição.)

Logo, a fim de nos tornarmos seres humanos mais plenos, inteiros e integrados, precisamos de razão e contemplação tanto quanto de apercebimento de emoções, de sentimentos, positivos e negativos, de luz, de sombra, enfim, de amor. Pois, para além da razão, está o que é transracional, o que é transpessoal, o que é sutil e nos sensibiliza, nos religa e humaniza. E ainda mais além: o não-dual, o Vazio Fértil, de onde emana a Presença…

É essa Presença que subjaz tanto as nossas alegrias, quanto as nossas batalhas do dia-a-dia, uma consciência de abertura ao encantamento e a beleza de viver, bem como, a  e a força para enfrentarmos as contradições, os antagonismos, as incertezas até os mais difíceis testes de impermanência ou transitoriedade da vida. 

Nesse transcurso para conciliar os contrários, integralizar os complexos e atender aos diversos requisitos do caminho do amor, podemos nos consorciar as mais variadas esferas de atuação em suas interfaces com a arte, a ciência e a espiritualidade, abrindo-nos a criatividade, aos saberes e a autoconsciência a serem exercitados em nossas relações pelos métodos que dispusermos.

Assim perfazemos nossa jornada existencial estando atentos ao nosso sentir em empreendendo o discernimento sensível entre a ação e a não-ação: a quietude, o silêncio, o repouso no amor, e então de volta a sua prática relacional, amando e sendo amados, exercitando a Presença, despertos para o nosso potencial interior de sabedoria amorosa, de CORAÇÃO e MENTE abertos a aprendizagem na VIDA.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Psicoterapia, regressão e meditação como práticas de presenciamento

A prática clínica tem me mostrado que tanto a psicoterapia quanto a regressão podem remeter a essência da meditação no seu sentido amplo que é a atenção plena, o tornar-se presente e o desenvolver uma introvisão e uma sensibilidade cada vez maiores, ampliando nossa ética, nossa compaixão, nossa sensibilidade, nossa consciência, nosso amor.

Nesse sentido será que seria possível entendermos a psicoterapia com regressão como um tipo de meditação?

Diria que sim ao menos em se tratando de uma psicoterapia numa abordagem transpessoal e da prática da meditação em seu sentido mais ativo, dinâmico ou com objeto; que não se opõe, mas sim poderia ser considerada complementar a meditação sem objeto, cuja meta seria uma não-dualidade, conforme as tradições espirituais.

Desse modo podemos optar por visões contemporâneas mais conciliadoras desses aspectos distintos do meditar, numa ampliação do conceito de meditação que oportuniza cada vez mais pessoas a começar de onde estão e a tornarem-se praticantes, a tornarem-se mais presentes, a exercitarem o presenciamento.

Pois sofrimento é ausência! Sofrer é viver a vida somente nas convenções, nos condicionamentos passados, no piloto automático da inconsciência. É ignorar os próprios avessos! É insensibilizar-se, estar distraído e alienado na vida e nas relações, distanciando-se da resolução dos conflitos ou sem aprender praticamente nada com eles, anestesiando-se, sem escuta interna, sem olhar a própria sombra, enganando-se e fugindo de si. E é nessa pretensa fuga do sofrer que fugimos também do sentir e do instante presente… sofrendo muito mais, pois prolongamos assim o nosso sofrimento nos habituando com ele. Um remedinho aqui, uma distraçãozinha acolá e assim seguimos…

Numa direção oposta, tanto a psicoterapia, quanto a regressão assim como a meditação são no fundo práticas de PRESENCIAMENTO, pois nos tornam mais capazes de nos liberarmos de nossos condicionamentos antigos e abrem espaço a presença que nos conecta ao aqui-agora e a um contato cada vez maior com a nossa essência e a energia transformadora do amor que expande a nossa mente e a nossa consciência. 

Porém, muitos não querem práticas, mas sim soluções de fora, de preferência rápidas ou imediatas, se ausentando até mesmo de seu próprio processo de cura e tomada de consciência, ignorando o sentido da doença ou do seu sofrer e transferindo a responsabilidade a um agente externo: médico, analista, padre, psicólogo, pastor, deus, terapeuta, monge, astrólogo, xamã, cartomante, mãe-de-santo, mestre, médium, etc. Agem passivamente como vítimas e buscam algum alívio tão somente ou controle de seus sintomas. Poucos são os que se dispõem verdadeiramente ao esforço humilde, honesto e resoluto de encarar o que precisa ser transformado em si mesmos e a atuar igualmente nas causas do seu sofrer, assumindo a auto-responsabilidade.

Afinal, isso envolve um exercitar as mudanças pessoais que vão ser sempre muito mais do que um simples alívio dos sintomas, exigindo também comprometimento, dedicação, profundidade, persistência ou, fundamentalmente, conscientização.

Para isso, muitas são as abordagens em terapia e técnicas de meditação, bem como, diversas são as terapêuticas, assim como muitos são os princípios comuns e também várias são as diferenças. No entanto, em essência, que é o que interessa, proponho que vai depender do nosso modo de compreensão, necessidades, afinidades e coordenação de ações, aproximarmos tanto quanto possível umas das outras, não no sentido de sobrepô-las, mas sim de aproveitá-las no melhor que pudermos de modo integrativo, a fim de buscarmos uma combinação de práticas e terapêuticas que funcionem bem para o nosso crescimento e evolução.

Ademais, convém cuidarmos com as falsas expectativas, pois nenhuma terapêutica, terapeuta ou abordagem vai resolver a nossa vida, nenhuma técnica é passe de mágica, nenhum processo verdadeiro vai dispensar o nosso esforço e não basta fazer regressão ou qualquer outro tipo de intervenção seja convencional ou alternativa que está tudo resolvido! Não devemos confundir a terapêutica (que nos alivia) com a terapia (que nos impulsiona a mudança). Não é o método em si, mas a nossa relação com ele que importa! Pois numa visão integral e evolutiva de saúde pouco adianta buscar o alivio de sintomas ou uma cura sem conscientização, pois estaremos apenas nos enganando, adiando a questão ou levando o problema para camadas mais profundas da nossa (in)consciência.

Portanto, ao adoecer, façamos a leitura disso nos múltiplos aspectos do nosso ser, no físico, psicológico e espiritual. É preciso praticar a mudança que queremos e isso inclui nossos hábitos e comportamento! Não basta tomar remédio, seja ele, químico ou natural, não basta submeter-se a intervenções cirúrgicas ou de qualquer outro tipo, até mesmo espiritual, você pode fazer tudo isso e em muitas situações pode até ser o indicado ou não, mas nenhuma erradicação ou alivio de sintomas é cura verdadeira se não envolver um sentido de mudança íntima, interna, de nossos hábitos e estereótipos comportamentais, enfim, se não promover algum tipo de conscientização mais profunda e integração de nossa sombra, ajudando a nos melhorar como seres humanos e a assumirmos responsabilidade pelo nosso próprio viver e sofrer.

Por isso, parto do pressuposto básico em minha prática clínica de que devemos aprender a meditar a vida, a estar presentes.

Assim, partir de nossos condicionamentos que são sempre pretéritos para o instante presente é um objetivo tanto da prática em psicoterapia quanto meditativa e em meu trabalho tenho procurado cada vez mais enfatizar isso junto as pessoas, o quanto esse exercitar deve ir para além do setting clínico, sendo orientado para a vida diária, tendo por base: a atenção plena ao presente do comportamento, ao sentir e respirar mais conscientemente, ao trabalho com as emoções, pensamentos, sensações corporais e sentimentos nas nossas relações e ao cultivo de valores de vida, da própria espiritualidade em nosso dia a dia.

Ou seja, isso também pode e deve ser feito ou praticado em nosso cotidiano mesmo, nos vários papéis que desempenhamos em nossas vidas e nos vários ambientes em que vivemos e não só naqueles espaços onde buscamos o autoconhecimento e o cuidado com a nossa saúde ou a espiritualidade, como nos consultórios, nos espaços terapêuticos, em vivências junto a natureza ou até em retiros de meditação.

Então podemos praticar em nossos relacionamentos, meditando ser pai ou ser mãe, marido, esposa, filho(a), etc., meditando o casamento ou a solteirice, o namoro ou as amizades, enfim, meditando as tarefas domésticas, meditando as relações de trabalho, ou nos vários papéis e funções que assumimos, ou seja, terapeutizando-nos em nossas relações habituais, exercitando a arte de cuidar, ou também, praticando a espiritualidade (enquanto dimensão de valores) onde estivermos.

Dessa forma, até onde vejo, aprender a parar, respirar, relaxar, sentir e tomar consciência das sensações corporais e pensamentos, meditando o nosso viver e nossas relações, também se torna parte do processo de interiorização a ser aprendido ao longo de um trabalho psicoterapêutico numa perspectiva mais integrativa e transpessoal.

Nesse ínterim a pessoa aprende também a identificar por si aqueles padrões automáticos que lhe causam sofrimento, rompendo gradativamente com eles na medida em que avança em sua atenção e aprofunda-se em compreensão e consciência sobre eles num exercitar que envolve tanto uma dimensão interna: pessoal, interior, quanto outra externa: interpessoal, social.

Portanto, os relacionamentos são fundamentais nesse sentido, pois vão refletir os pontos onde estamos bem ou pontos onde precisamos melhorar. Vão refletir nossos pontos cegos ou onde ainda estamos bloqueados. O sentir nos guia ao trazemos o foco para uma atenção sensível aos nossos próprios pensamentos e atitudes, numa sensibilidade inteligente em que a razão serve ao coração, nos conduzindo a um aprofundamento de nossos temas a serem tratados.

Entrementes, um excelente acelerador desse processo de autoconhecimento é a técnica de regressão que ao contrário do que possa parecer é um método não de retorno ao passado, mas ao contrário e similarmente a psicoterapia e a meditação, de descondicionamento psicológico do passado para trazer a pessoa ao presente, ao aqui e agora de seu ser e estar no mundo.

Minha própria visão e experiência nesse campo apontam para o fato de que as lembranças e revivências de memórias profundas têm virtudes terapêuticas que possibilitam o desativar de bloqueios emocionais no inconsciente, bem como, o reformular de mandatos negativos limitantes. Sobretudo podemos desenvolver maior autoconsciência pela aquisição de mais amor sabedoria através do aprendizado de leis sutis e causais que regem as nossas vidas em termos psíquicos e que afetam nossas escolhas, gerando conseqüências.

A regressão possui uma vantagem fundamental em relação a meditação para trabalhar aspectos sombra (inconsciente negativo) por ser mais direta e apropriada ao rastreamento, liberação e ressignificação de bloqueios específicos no subconsciente enquanto a meditação é mais ampla e genérica nesse aspecto; porém é através da psicoterapia encarada como meditação ou até de outras práticas de meditação concomitantes que podemos tornar a mudança operada pela regressão mais consistente em nosso comportamento, pois isso demanda um exercitar constante.

A terapia regressiva é, portanto, um método de presenciamento e ampliação da consciência que ajuda na integração de aspectos negativos polarizados em nosso inconsciente, possibilitando-nos restaurar maior equilíbrio e harmonia em nosso ser e em nossa saúde, através do esforço que inclui a regressão, mas que vai muito além dessa, passando pela psicoterapia e pela prática do presenciamento meditativo em nosso dia a dia.

Volto a enfatizar, no entanto, que embora a psicoterapia possa funcionar como um tipo de meditação dinâmica ou possa incluir e incentivar a prática de diferentes tipos de meditação, ou práticas em paralelo, uma não substitui a outra, nem muito menos substituem a regressão ou até a necessidade de outras terapêuticas auxiliares, pois penso que cada uma tenha sua função ou respectiva importância e num viés de complexidade e de múltiplos níveis de ser, de saúde e realidade, podem atuar complementarmente na maior parte das vezes.

Sistematizador da abordagem integral e praticante experimentado de meditação, o filósofo Ken Wilber afirma que “a meditação pode ajudar, mas não substituir a psicoterapia.” (Visão Integral, pg. 183, 2008). Eu acrescentaria que a psicoterapia poderia se incluir nas formas de meditação dinâmica, mas indicaria as tradições contemplativas para métodos de meditação sem objeto, visando a vacuidade ou natureza última dos fenômenos e a não-dualidade, pois as psicoterapias de modo geral não se propõem a isso e não substituem esse tipo de meditação. 

No entanto, enquanto no ocidente o uso excessivo da razão trouxe-nos a tendência a polarizar a realidade, no oriente, há certa tendência a se minimizar a importância do trabalho psicológico de base em prol de uma via contemplativa mais direta para além das polaridades que também pode acabar se tornando polarizada. Pois, tanto a tendência ao racional típica no ocidente, quanto a tendência mais contemplativa típica no oriente, bem como, seus entrecruzamentos mais contemporâneos tendem a escamotear e opor fortes resistências ao trabalho com a sombra. Porém, se a razão divide para conhecer e a contemplação abre espaço ao não-dual, a quietude e ao silêncio, o sentir interliga e o amor une, integra. Todas essas funções são indispensáveis para o nosso crescimento genuíno, correspondem a estágios de evolução da nossa consciência e exigem múltiplos modos de desenvolvimento e aprendizado.  

Assim, se a meditação sem objeto promove acesso a estados elevados e ao ponto último conforme descritos em grandes tradições espirituais, a regressão transpessoal pode promover acesso ao subconsciente e ao trabalho com as sombras onde divino também espera por nós, na medida em que lá estão nossas possibilidades de conversão, de redenção, a integração da luz com a sombra, bem como nosso potencial para a sabedoria intuitiva, para o perdão e para o amor.

Além do mais, Ken Wilber faz a seguinte constatação: “Achava-se que a meditação por si só fosse capaz de trazer à tona ou ‘des-reprimir’ a maioria dos tipos de material inconsciente reprimido. Mas depois das últimas décadas de prática de meditação, milhões de sombras permanecem inalteradas.” (Visão Integral, pg. 183, 2008) E complementou: “As razões para isso foram investigadas e a questão a fundo parece ser que, a não ser que você saiba exatamente o que está buscando, a vasta panorâmica da meditação é uma abordagem demasiadamente genérica para tocar elementos específicos da sombra. Para isso, faz-se necessária uma psicoterapia do tipo raio ‘laser’.” (Visão Integral, pg. 183, 2008)

Pois quando bem empregada, a regressão tem mostrado precisão e eficiência cirúrgicas (a laser!) na recuperação, liberação e reconfiguração de memórias profundas para descondicionamento psicológico, ajudando a abrir espaço a presença que nos conecta ao aqui-agora, ao contato cada vez maior com a nossa essência e a integração da sombra pela energia transformadora do amor.

Mas o mais é importante é que ainda numa perspectiva conciliatória e complementar, tanto a psicoterapia quanto a regressão podem potencializar a prática de meditação seja o tipo que for, assim como métodos meditativos de qualquer tipo podem favorecer a quem faz psicoterapia e regressão.

E concluo afirmando que a combinação de psicoterapia, meditação e regressão pode contribuir enormemente para o nosso crescimento psicológico e espiritual, numa abordagem que integra bem aspectos do ocidente e do oriente, de forma coesa, nos possibilitando um caminho de evolução que não exclui nem as filosofias e práticas orientais nem as filosofias, ciências e psicologias ocidentais, mas sim aproveita o que há de melhor e mais essencial em todas elas em prol de nossa evolução e libertação do sofrimento em direção ao AMOR.

A Regressão de Memória e a Espiritualidade à luz de uma Ciência com Consciência - parte 2

Como temos visto, é no âmbito de uma ciência do mundo interior, de uma ciência da consciência que a técnica de regressão e qualquer tipo de espiritualidade pode se fundamentar, pois não faz sentido algum qualquer tentativa de encaixe de seus pressupostos no fracassado paradigma cartesiano com o seu falseamento da realidade e suas vãs promessas de progresso dissociado da natureza que apenas reencenam uma espécie de Prometeu moderno, onde o homem em seu delírio racional, ignorante de seus mitos e complexos inconscientes, mobiliza forças que pressupõe poder controlar mas que impiedosamente reverberam contra si, levando-o a tragédias.

É notório que precisamos um novo paradigma de ciência. Isso já foi defendido por muitas vozes sábias no passado e, felizmente, essa empreitada vem sendo aceita mais atualmente por alguns dos principais pensadores contemporâneos, dentre esses, destaco especialmente alguns dos que venho utilizando para embasar o meu trabalho clínico e este próprio artigo, como o autor da teoria da complexidade Edgar Morin; os biólogos Humberto Maturana e Francisco Varela; o filósofo da consciência David Chalmers; as contribuições da transdisciplinaridade de Basarab Nicolescu e seus colegas; também os diversos autores humanistas, junguianos e transpessoais; bem como, o pensador francês Pierre Levy. Mais ainda, revisitando Georges Canguilhem, Claude Bernard; ou então, unindo o pensamento ocidental com a sabedoria do oriente através do professor budista B. Alan Wallace, de Ken Wilber, autor da abordagem integral e do sábio indiano Sri Aurobindo, dentre muitos outros não citados aqui, mas que podemos incluir na proposição de um pluralismo metodológico cientifico, de mudanças de paradigmas e de uma nova epistemologia da ciência.

Ken Wilber (1997), por exemplo, sustenta que uma das tentativas mais sofisticadas que podemos encontrar para compreendermos múltiplas realidades é o pluralismo epistemológico, ou seja, o pressuposto de que nossa existência, por possuir diferentes níveis de ser (ontológico), pode por conseqüência, possuir também diferentes níveis de saber (cognição). Conforme ele enfatiza, todo conhecimento válido, seja ele de ordem sensorialmental ou espiritual, pode ser validado ao passar por três etapas decisivas: 1) no treinamento em algum método de apreensão de dados, injunção, método-guia, exemplar, ou prática social; 2) através do experimentar sistematicamente, pela experiência pessoal, experimentação ou empirismo puro; 3) e pelo compartilhar numa comunidade de verificação, comparação comunitária, testagem pública para confirmação ou refutação num grupo de pessoas que tenha completado as etapas anteriores.

E isso, segundo ele diz, pode ser feito de forma metodologicamente apropriada a qualquer objeto de pesquisa, seja ele físico, mental ou espiritual. Em suma, respeitando os três olhos do saber, podemos praticar ciência empírica (olho da carne), ciência mental (olho da mente) e ciência espiritual (olho do espírito); através de três tipos de metodologias decorrentes, que podem ser tecnicamente assim descritas: 1) método empírico-analítico: baseado na covariância de eventos observáveis no mundo sensório-motor para investigar a dimensão física ou material; 2) método histórico-hermenêutico: baseado no acesso aos fatos por meio do entendimento do sentido ou da interpretação e seu mundo racional, dando espaço a dimensão mental ou subjetiva; 3) método intuitivo-contemplativo: acesso aos fatos por meio do treinamento da intuição e da percepção em diferentes estados de consciência para acesso ao mundo transcendental, a dimensão espiritual.

Desse modo, é preciso treinamento da percepção, da cognição e da intuição em diferentes estados de consciência para adentrar as esferas da espiritualidade, do mesmo modo que é preciso fazer anos de faculdade para se obter um diploma. Assim, os dados e as experiências espirituais, incluindo aí, as obtidas em revivências transpessoais, estão a nossa disposição, desde que paremos com a empáfia de querer impor à realidade espiritual como ela deva ser e nos interessemos e permitamos verdadeiramente vivenciar seus domínios segundo suas próprias leis e características. O que vem ao encontro daquilo que já afirmava aquele que foi considerado por muitos, um os maiores filósofos sábios da Índia, o yogue com formação acadêmica ocidental, Sri Aurobindo:

“Todas as verdades, suprafísicas ou físicas, não podem fundar-se somente sobre as crenças mentais, mas sim sobre as experiências – experiências, porém, que correspondam ao tipo específico – físico, subliminar ou espiritual – de verdades que se quer investigar; a validade e o significado dessas experiências têm de ser examinados, mas de acordo com a própria lei delas e por meio de uma consciência capaz de reproduzi-las em si mesmas (…); só assim poderemos ter segurança no nosso caminhar e chegar a ampliar significativamente a nossa esfera de conhecimento.” (Sri Aurobindo apud A.S. Dalal, pg. 169, Uma Psicologia Maior, 2001)

Nesse mesmo compasso, B. Alan Wallace, pesquisador americano e professor de budismo e meditação e de suas relações com as neurociências, defende que é perfeitamente possível levarmos a ciência para o domínio interior pelo treinamento da introspecção, o que o aproxima da proposta de Aurobindo e de Wilber dos três olhos do saber, bem como, das proposições de outros investigadores da consciência:

“Com relação a adquirir conhecimento introspectivo, uma única cognição pode ser avaliada – epistêmica e pragmaticamente – apenas em relação a cognições prévias posteriores. Com treinamento, pode-se intensificar e aprimorar a faculdade da metacognição, ou introspecção, tanto quanto a faculdade visual humana tem sido intensificada e aprimorada com instrumentos como o telescópio. E por meio do discurso verbal pode-se cruzar referências das experiências de uma pessoa com as de outros que se engajaram nesse treinamento introspectivo, assim como os cientistas testam as descobertas uns dos outros em seus respectivos laboratórios.” (B. Alan Wallace, pg.142, Dimensões Escondidas, 2009)

Portanto, a despeito dos proselitistas oficialistas de qualquer naipe, não é a TRT – Terapia de Revivência Transpessoal que tem de se submeter ao rigor acadêmico ou cientifico, o que quer que isso signifique para esses, até porque existem divergentes visões de ciência na própria academia e mesmo fora dela, mas sim os interessados em avaliá-la honestamente que precisam antes dialogar com seus pressupostos e experimentá-la em sua finalidade terapêutica a fim de referendá-la ou não cientificamente. Antes disso, qualquer tipo de ataque, julgamento ou desqualificação que parta de pessoas de “fora”, não dispostas ao treinamento teórico-prático de seu paradigma – como fazem seus psicoterapeutas entre si para depois trabalhar com seus respectivos pacientes formando uma verdadeira comunidade de verificação – não passa de mero preconceito disfarçado de discurso pretensamente cientifico, oficialista ou acadêmico falacioso, a revelar algum nível inconsciente de autoritarismo dogmático ou recalque, típicos daqueles que em resvalando na insegurança se escondem atrás de titulações ou posições de poder para atacar aquilo que desconhecem, talvez por sentirem suas crenças, títulos, fixações ou status ameaçados.

Como enfatiza a sabedoria oriental de Ananda Coomaraswamy: “Não seria científico dizer que tais consecuções são impossíveis, a menos que se tenham feito experiências de acordo com as disciplinas prescritas e perfeitamente inteligíveis… Que isto é assim não pode ser demonstrado nas salas de aulas, onde lidamos apenas com tangíveis quantitativos. Ao mesmo tempo, não seria científico negar uma pressuposição cuja prova experimental é possível. No caso presente existe um Caminho prescrito para os que consentirem em segui-lo…” (apud WILBER, pg. 21, O Espectro da Consciência, 1977)

Nessa mesma linha, os biólogos Humberto Maturana e Francisco Varela, por sua vez, sustentam que toda a pesquisa é uma intervenção na realidade de modo que precisamos levar em conta não apenas a objetividade, mas também a subjetividade do observador, pois muitas pessoas ainda estão iludidas de que o trabalho científico deva desconsiderar a subjetividade e a dimensão qualitativa, como se a ciência não fosse um trabalho feito por humanos. O que, como vimos, tem provocado conseqüências éticas desastrosas, como bem alerta o próprio Maturana: “Dizem que nós, seres humanos, somos animais racionais. Nossa crença nessa afirmação, nos leva a menosprezar as emoções e a enaltecer a racionalidade(…) Nesse processo, fizemos com que a noção de realidade objetiva, se tornasse referência a algo que supomos ser universal e independente do que fazemos, e que usamos como argumento visando a convencer alguém, quando não queremos usar a força bruta.” (Humberto Maturana, pg. 243, Ontologia da Realidade, 2002)

Assim, essa dupla de biólogos lança uma ponte sobre o abismo que tem separado a ciência e seu universo objetivo da experiência humana e seu domínio subjetivo; argumentando que somente pela interface da mente na ciência e da mente na experiência é que nossa compreensão da cognição pode ser melhorada, propondo para isso um diálogo contínuo entre as ciências e outras tradições sapienciais, pois como argumenta Maturana: “(…) a realidade e o real são também proposições explicativas da práxis do viver de um observador que surgem num colapso de suas coordenações de ações com outro, mas que não surgem como tentativas de coagir o outro a satisfazer a sua vontade. Ao contrário, nesse caminho explicativo, a realidade e o real surgem como convites de um observador a outro para envolver-se na constituição de um domínio particular de coordenações de ações enquanto um domínio de coexistência em aceitação mútua.” (Humberto Maturana, Ontologia da Realidade, 2002)

Do modo similar, o paradigma da transdisciplinaridade nos propõe uma dialogicidade entre a arte, a ciência e a consciência (ou a experiência interior e a espiritualidade), oferecendo sustentação para que muitas experiências transpessoais sejam legitimamente válidas, assim como, as várias técnicas terapêuticas que trabalham a partir delas. Isso porque o enfoque transdisciplinar, segundo um de seus fundadores, o físico teórico Basarab Nicolescu (2003), pressupõe tanto o pensamento como a experiência interior, tanto a ciência quanto a consciência, tanto a efetividade, quanto a afetividade. É a valorização da abordagem in vivo, vivencial, resgatada, em detrimento ao exclusivismo da abordagem in vitro, artificial, cartesiana ou laboratorial. Esta última, já bastante questionada num período anterior ao surgimento dos pressupostos transdisciplinares, pelo então médico francês, especialista em epistemologia e história da ciência, Georges Canguilhem:

“A não ser que admitamos que as condições de uma experiência não têm influência sobre a qualidade de seu resultado – o que está em contradição com o cuidado tomado para estabelecê-las – não se pode negar a dificuldade que existe em comparar às condições experimentais as condições normais – tanto no sentido estatístico quanto no sentido normativo – da vida dos animais e do homem.” (Canguilhem, pg. 114, O Normal e o Patológico)

Indo além, a abordagem transdisciplinar leva em consideração que a realidade pode ser complexa, multidimensional e multireferencial, formada por vários níveis de experiências que podem ser descontínuos. Isso significa dizer que as referências, medidas e leis de um nível ou contexto de realidade podem não servir para abordar os outros.

“As normas funcionais do ser vivo examinado no laboratório só adquirem um sentido dentro das normas operacionais do cientista. Ou ainda, condições diferentes fariam surgir normas diferentes.” (Canguilhem, pg.114, O Normal e o Patológico)

Isso exige uma atitude de maior humildade diante dos fenômenos e da vida, onde o investigador precisar tomar mais consciência de si e galgar novos patamares de maturidade, deixando de praticar uma ciência prepotente e estreita, reducionista ou monometodológica, baseada numa postura inconscientemente “fascista” que obriga os outros a acreditarem em supostas provas de realidade, como se fossem verdades universais. Essa nova atitude transdisciplinar, de acordo com Nicolescu (2003), enseja substituirmos o poder e a posse do conhecimento pelo espanto, questionamento e compartilhamento mútuos. Onde o sujeito se torna consciente de que não é possuidor do conhecimento ou de que não se apropria do objeto do conhecimento, mas sim, de que produz questões instigantes ao invés de respostas definitivas. E aceita com modéstia que suas versões interpretativas do real são provisórias e têm validade apenas limitada, relativa e contextual. A atitude onde um cientista assume suas implicações no processo de pesquisa, interpretação e divulgação dos fenômenos, abandonando o engodo da neutralidade e admitindo a influência decisiva de seus próprios critérios, comportamentos, métodos e até do próprio meio em que atua.

Pode-se dizer, a respeito do universo de qualquer ser vivo, o que Reninger diz a respeito do universo do homem: Nossa imagem do mundo é sempre também um quadro de valores.” (Canguilhem, pg.143, O Normal e o Patológico )

Não obstante a isso, Edgar Morin, filósofo da complexidade afirma que diante dos problemas cada vez mais complexos que as sociedades contemporâneas enfrentam, apenas estudos de caráter inter-poli-transdisciplinar poderiam resultar em análises satisfatórias de tais exigências. Para ele, a natureza humana seria o paradigma perdido pela prática cientifica cartesiana, sendo mais um a propor uma profunda transformação epistemológica rumo à invenção de uma “ciência com consciência”.

E é justamente nesse intercurso de mudanças de paradigmas que surge a psicologia transpessoal como um ponto de convergência entre a espiritualidade e a transdisciplinaridade, estando para as ciências e psicologias como o transdisciplinar está para as ciências e saberes, respectivamente: entre, através e além do pessoal e do disciplinar. Similarmente, a espiritualidade, objeto de seu interesse, está para as ciências e religiões, pois é uma vivência, um conceito e um entendimento trans-religioso, transcultural, a exigir múltiplos modos de se fazer ciência.

Nesse sentido a orientação transpessoal tem sido amplamente voltada para o estudo, a pesquisa e a vivência da espiritualidade, sendo transdisciplinar em suas bases, na medida em que converge com outras áreas do saber unindo oriente e ocidente, e é construída a partir de diferentes percepções e interpretações sobre a realidade, tendo em vista seus múltiplos níveis, sua descontinuidade e a importância primária da experiência interior.

Na Índia sempre se compreendeu que a razão, com sua lógica e seus juízos, não pode dar a ninguém a realização das verdades espirituais, mas somente colaborar para a apresentação intelectual das idéias; a realização vem pela intuição e pela experiência interior.” (Sri Aurobindo apud A.S. Salal, pg. 171, Uma Psicologia Maior, 2001)

Consecutivamente, é através da experiência interior que podemos integrar ciência e espiritualidade, validando e valorizando mais o nosso próprio vivido. É pela vivência terapêutica e afetiva que podemos avaliar a TRT e as experiências transpessoais ou espirituais de modo correto e atestar sua cientificidade, tanto quanto entrar em contato com a energia do amor, a fim de nos tornarmos mais autoconscientes.

Sem esse experimentalismo íntimo, afetivo e pessoal, ou sem uma real abertura a nos autoconhecermos, estamos entregues aos ditames insensíveis do intelecto, correndo sérios riscos de ficar nos achando os donos da razão, recaindo naquilo que tão bem prenunciava Albert Einstein ao afirmar que “a ciência sem religião é capenga e a religião sem ciência é cega”. Ao que apenas gostaria de acrescentar: tanto a ciência, quanto a religião sem amor tornam-se cegas e capengas! E é exatamente por isso que precisamos uma ciência com consciência para unir ciência e religião, ou ciência e espiritualidade, de um modo justo e congruente com ambas as partes, ou seja, valorizando o maior mérito da ciência que é o ‘experimentalismo sistemático compartilhado’, bem como, os grandes méritos da espiritualidade advindos da ‘experiência interior’ que permite o desenvolver de saberes sensíveis, assim como, o resgate do sagrado a partir de valores conscienciais inerentes ao potencial interior de transcendência dos seres humanos em sua capacidade afetiva para o amor.

No viés transpessoal e transdisciplinar precisamos exercitar a simplicidade de ser na complexidade do ser, incentivando o despertar do líder que há dentro de cada um e educar para fazer luzir o ser autêntico, sensível, responsável, consciente, criativo, solidário, disposto ao auto-aperfeiçoamento constante. Como diria Nicolescu:

Criar as condições para o surgimento de pessoas autênticas envolve assegurar as condições para a realização máxima de suas potencialidades criativas. (…) A abordagem transdisciplinar está baseada no equilíbrio entre a pessoa exterior e a pessoa interior. Sem esse equilíbrio, ‘fazer’ não significa nada mais do que ‘se submeter’. ‘Viver em conjunto’ não significa apenas tolerar dos outros as diferenças de opinião, de cor de pele e de crenças; submeter-se às exigências do poder; negociar o certo e o errado dos inúmeros conflitos, separando, definitivamente, a vida interior da vida exterior. A atitude transcultural, trans-religiosa, transpolítica e transnacional pode ser aprendida. Uma vez que em cada ser há um âmago sagrado, intangível e inato. Contudo, essa atitude inata é apenas potencial e pode permanecer não atualizada para sempre, ausente em vida e em atos. Para que as normas da coletividade sejam respeitadas, precisam ser validadas pela experiência interior de cada ser.” (Basarab Nicolescu, A Evolução Transdisciplinar na Universidade, 1997)

Outrossim, é tão somente através da energia evolutiva do amor que precisa ser autodesenvolvida que podemos construir paradigmas cientificamente e genuinamente espirituais que compensem todo o nosso esforço e respeitem a vida de todos os seres deste planeta e do cosmos como um todo, pois o dogmatismo não acontece no amor, mas na ausência deste.  O dogmatismo é a pretensão de poder ou controle sem amor, pois um opera na sombra do outro. O dogmatismo é a prepotência do ser que tenta esconder e compensar o seu complexo de inferioridade, todo o seu desamor e negatividades. Enfim, é a negação ou a defesa da nossa própria sombra: nossa “entourage” negativa inconsciente. E estamos todos envoltos em maior ou menor consciência nessa dualidade, podendo recair nisso em maior ou menor grau… em nossas dificuldades no trato com as diferenças. A humildade começa então e, talvez, apenas comece, quando somos capazes de reconhecer isso, de aceitar cada vez mais a nossa própria sombra, sem mais projeções ou deslocamentos.

Para tanto, existe um amor que nos é dado e um amor a ser desenvolvido rumo a uma inteireza e plenitude de ser cada vez maiores. Sendo o amor uma inteligência sensível, um potencial de vir-a-ser, algo a ser aprendido intimamente e através de nossas relações, vale a pergunta: onde temos sido incentivados a desenvolver mais conscientemente esse devir do amor? Os acadêmicos, por exemplo, constrangem-se em falar de amor, acham piegas. A ciência cartesiana o reduziu a química corporal. As nossas filosofias desviaram-se dele colocando num pedestal a razão. Já os mitos só falam de amores trágicos. Enquanto isso, a religião o relega em prol de ritos, regras e tradições. E a nossa cultura tratou de romanceá-lo e não satisfeita, de infantilizá-lo subliminarmente. E assim vivemos numa sociedade onde justificando-nos por inúmeras razões contraditórias, sem reconhecer os nossos avessos e a nossa sombra, abandonamos o amor, vivendo desrazões e sofrimentos. Uma cultura da vitimização e do ressentimento onde a razão rejeita o amor. Onde não toleramos uma dorzinha sequer sem apelar para pílulas ou entorpecimento afetivo. Uma sociedade de valores invertidos, sombria, onde seus membros preferem encher a si mesmos de ilusões para manter as aparências a todo custo e abafar ou compensar suas frustrações ao invés de aprender e crescer com elas.

Por isso, que estejamos atentos então, pois numa cultura extremamente massificada como a nossa, a própria espiritualidade que vem surgindo dessas mudanças de paradigmas obviamente não escapa ilesa, formando aquilo que vem sendo chamado pejorativamente de espiritualismo new age, mas que na verdade nada mais é do que o lado sombra da própria espiritualidade sendo ingenuamente negado e cujo cerne problemático continua sendo o mesmo das ciências e das religiões, ou seja, a tendência humana, “demasiado humana (diria Nietzsche)”, de se deixar levar por ilusionismos (e ilusionistas de todos os tipos!), tendo em vista que sempre vai ser mais fácil e mais cômodo se iludir do que encarar a si mesmo e abrir-se ao sentir mais profundo, admitindo partir de uma base anímico-emocional carente negativa: nossos condicionamentos passados ou vícios de caráter e conduta, com seus árduos e desafiadores bloqueios orientadores sobnegados no inconsciente a nos demandar regeneração afetiva, moral e espiritual.

Assim, o caminho menos percorrido, portanto, o mais estreito, é o da INTEIREZA, onde ao contrário de uma “perfeição” idealizada, somos desafiados a nos conscientizar e aprender a amar mais plenamente, exercitando virtudes e aceitando as nossas negatividades em reconhecendo a própria sombra através do trabalho transformativo interior.

Afinal, podemos claro, desistir do amor… as pessoas preferindo iludir-se freqüentemente fazem isso sem nem ao menos suspeitar… mas o amor nunca desiste de nós e continua a nossa espera, no interior de cada um. Pois amar e amar-seconhecer e autoconhecer-se é o sentido de nossa própria existência e o impulso de nossa própria evolução.

       
  Bibliografia:
  • CANGUILHEM, Georges. O normal e o patológico.  Ed. Forence Universitária, 7a edição, 2011.
  • CHALMERS, David. The Conscious Mind: In Search of a Fundamental Theory. Ed. Oxford University Press, 1996.
  • CREMA, Roberto. Liderança no Século XXI: Impactos da Passagem do Milênio. Texto de transcrição de palestra, Brasília, DF, 1998.
  • DALAL, A.S. (org.). Uma Psicologia Maior – Introdução a doutrina psicológica de Sri Aurobindo. São Paulo, Ed. Cultrix, 2001.
  • FRIEDLANDER, Henry. The Origins of Nazi Genocide: From Euthanasia to the Final Solution. Ed Univ. of North Carolina Press, 1997.
  • WALLACE, B. Alan. Dimensões Escondidas. São Paulo, Ed. Petrópolis, 2009.
  • WILBER, Ken. O Espectro da Consciência. São Paulo, Ed. Cultrix, 1977.
  • WILBER, Ken. O Olho do Espírito. 10ª ed., São Paulo, Ed. Cultrix, 1997.
  • LEVY, Pierre. O Fogo Liberador, São Paulo, Ed. Iluminuras, 2000.
  • MATURANA, Humberto. A Ontologia da Realidade. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2002.
  • MATURANA, Humberto e VARELA, Francisco. A Mente Incorporada – Ciência Cognitiva e Experiência Humana – Ed. Artmed.
  • MORIN, Edgar. Ciência com Consciência. Ed. Bertrand Brasil. 2005
  • NICOLESCU, Basarab. Transdisciplinaridade – Teoria e Prática. Ed. Hampton Press, EUA,2008.
  • NICOLESCU, Basarab. Manifesto da Transdisciplinaridade, 2003.
  • NICOLESCU, Basarab – A Evolução Transdisciplinar na Universidade – Condição para o Desenvolvimento Sustentável – Conferência no Congresso International “A Responsabilidade da Universidade para com a Sociedade”, International Association of Universities, Chulalongkorn University, Bangkok, Thailand, de 12 a 14 de nov. de 1997: http://ciret-transdisciplinarity.org/bulletin/b12c8por.php

A Regressão de Memória e a Espiritualidade à luz de uma Ciência com Consciência - parte 1

As pessoas gostam de discutir e afirmar que algo é científico ou não sem muitas vezes nem considerar o que é ciência de fato, a história da ciência e seus diferentes métodos e filosofias. Falam de maneira simplista em prova e comprovação e repetem bordões aprendidos culturalmente sem humildade alguma diante do que desconhecem e é lugar comum testemunharmos o descarte por vezes leviano dos fenômenos ou de suas hipóteses sem um mínimo de experiência e conhecimento prévio no assunto ou até mesmo o deboche e a desvalorização daquilo que geralmente atenta contra os seus próprios parâmetros de realidade. As pessoas esquecem que seu ponto de vista sobre a realidade não é a realidade, mas apenas um “ponto”, uma experiência de realidade.

E esse tipo de postura ainda é bastante frequente e talvez até mais problemática em pessoas com algum tipo de formação acadêmica e cientifica, principalmente quando não reconhecem que mesmo com todo seu pretenso conhecimento (geralmente especificista) e tipo de formação acadêmico-cientifica não estão isentas de serem limitadas pela sua própria experiência, crenças, valores e ideologias ou mesmo pela sua formação teórico-prática.

Considero esta discussão muito importante para podermos tratar de um tema tão delicado como a espiritualidade na abordagem transpessoal, pois ela se situa entre as crenças tanto cientificas quanto religiosas das pessoas; entre, através e além.

Com esse objetivo em mente, dividi este artigo em duas partes, na primeira, procurei trazer uma visão crítica da ciência moderna e de sua conflituosa relação com a religião, inclusive em seu aspecto histórico, apresentando as contradições de ambas e suas possíveis causas. Na segunda parte, ofereço uma síntese de alguns dos principais pensadores livres e acadêmicos que propõe uma visão mais conciliatória e equilibrada nessa relação, em busca de uma nova epistemologia da ciência onde se torna possível situar a espiritualidade, a transpessoalidade e a própria fenomenologia terapêutica da TRT-Terapia de Revivência Transpessoal em sua interface com a experiencia interior.

Entrementes, é a partir de meu olhar como clínico e psicoterapeuta no trato da dor humana e de suas relações com as crenças religiosas ou cientificas que influenciam as pessoas de modo bastante diverso, que constato frequentemente que a essência deste dilema, do ponto de vista psicológico, é que tanto a ciência, quanto a religião, quando desviadas de princípios éticos sensíveis pelo desenvolvimento de uma afetividade consciente, ou seja, de uma inteligência operativa emocional, ou intuição-contemplativa, ou de saberes sensíveis ou, em última instância, da própria energia evolutiva do amor, tem sido utilizadas, cada uma a sua maneira, como ferramentas de poder e propaganda para a manipulação das massas em direção a interesses egoístas, destrutivos, artificialistas e de minorias dominantes, fechando as pessoas em preconceitos e enclausurando-as em conflitos de ordem íntima e relacional que se manisfestam desde simples intolerâncias, passando por lutas de classes até batalhas e guerras sangrentas entre nações.

O problema, no entanto, não é nem a ciência, nem a religião, mas sim, quando as pessoas envolvidas em suas atividades estão inconscientes de seus impulsos, emoções, sentimentos e ignorando suas próprias sombras pelo viés da razão e do intelecto dissociado de um sentir mais consciente, desviam-se do propósito do amor, acreditando que apenas o seu tipo de ciência ou o seu tipo de religião detém algum tipo de verdade universal. É quando seus membros não admitem ser parte, querendo ser o todo! 

Ou seja, o problema são os fanáticos, os radiciais, os sectaristas, os dogmatistas de todos os tipos e em seus mais variados “graus” com suas mentes rígidas, suas sombras a revelia, seus impulsos-emoções-motivações inconscientes e seus corações endurecidos! E esses estão por toda a parte, estando presentes em todas as vertentes e áreas do saber e do conhecimento humano, ou ainda, da vida humana, pois ninguém está isento em algum grau desse primitivo desejo de controle e poder, de possuir partes comportamentais enrijecidas e até de vir a resvalar no autoritarismo-impositivo. Só os ingênuos, os que se desconhecem e ignoram a própria sombra, a polaridade negativa do seu ser, vão acreditar estar completamente livres dessa dialética existencial.

E essa não é uma questão meramente intelectual, pois a razão pode ser utilizada tanto para justificar o bem, quanto o mal, tanto do ponto de vista cultural quanto filosófico, cientifico, religioso, etc. É fato que hoje e ao longo da história temos tido sociopatas e psicopatas inteligentíssimos nos mais altos cargos de poder e confiamos a eles voluntariamente as mais importantes decisões coletivas. Oras, será que eles são desservidos intelectualmente ou destituídos de uma razão concreta? Ou os ingênuos somos nós? Será que não temos estado por demais distraídos, acomodados, inconscientes e cegos pela razão, que é apenas “uma” função do nosso aparelho psíquico, deixando os outros determinarem por nós o que é cientifico ou não, o que nos faz bem e o que pode nos fazer mal e assim por diante? Por que será que não podemos confiar em nossa própria experiência interior? Experiência essa (e seu partilhar comunitário) que é a essência tanto de uma ciência, quanto de uma religião com consciência e não de obediência passiva, meramente racional ou literal, conforme Buda já prescrevia no século VI a.C:

“Não creia em coisa alguma com base na autoridade de mestres e sacerdotes; não creia em coisa alguma pelo fato de lhe mostrarem o testemunho escrito de algum sábio antigo. Aquilo, porém, que se enquadrar na sua razão e depois de minucioso estudo for aceito pela sua experiência, conduzindo ao seu próprio bem e ao de todas as outras coisas vivas, a isso aceite como verdade e por isso paute sua conduta.” (Buda)

Assim precisamos olhar também para dentro de nós mesmos, para o nosso interior, tornando-nos cientistas do nosso universo intrapsíquico a fim de desenvolver a nossa própria consciência, assumindo responsabilidade por essa vida, estando presentes e aprendendo a criar conexões sensíveis de nossa mente com o nosso coração, integrando os conhecimentos vindos de fora com o autoconhecimento que vem de dentro.

É preciso mudar o modo de pensar em ciência, pois precisamos aprender a pensar com o coração, com sensibilidade e respeito a diversidade humana e das espécies. Pois a razão, o intelecto e a fé na própria ciência ou religião podem ser usadas tanto para o beneficio e avanço da humanidade quanto para manipular mentes através da falsa propaganda, como vem ocorrendo ao longo da história.  Infelizmente, temos sido ensinados a crer e a pensar de modo heterônomo, exigindo o mesmo dos demais, porém, sem passar pela autonomia de nossa experiência direta, nos tornamos meros replicadores inconscientes de interesses de outrem e avessos a pensar fora da caixa.

Ou seja, deveríamos nos preocupar menos com os “moralismos universais” de supostas provas da ciência ou mesmo de literalidades religiosas, e mais com a aplicabilidade das coisas em nossas próprias vidas de modo sensível aos demais! É preciso avaliar conceitos, fatos e fenômenos de mente e coração abertos, resgatando o sentido do amor em nossas próprias experiências, conhecimentos e saberes, a fim de partilhá-los com os outros. Como diria Pierre Levy em sua inspirada obra de rara sensibilidade espiritual a respeito da importância do autoconhecimento:

“A moral clama por obediência. A liberdade, pela ética. A moral julga baseada em critérios e regras universais, antes de provar, reconhecer e compreender. A moral quase sempre se volta contra o próprio ser. Dela nos servimos para culpá-lo, julgá-lo, bloqueá-lo, humilhá-lo. Ora, tudo o que diminui o ser humano é ruim. Os preceitos éticos só têm sentido para uma personalidade aberta, em contato consigo mesma, consciente de suas emoções, em formação, em crescimento. Para outros, e talvez para a maioria das pessoas, as máximas éticas são regras morais, barreiras de prisão. Nada têm de libertador. A ética é o veículo que conduz à felicidade. Exige-nos a plena consciência. Lembra-nos sem cessar: ‘Esteja presente!’. O desenvolvimento pessoal é o primeiro degrau, o meio e o fim da ética.” (Pierre Levy, O Fogo Liberador, 2000)

Pois sem a inteligência sensível do amor que precisa ser desenvolvida interiormente assim como a espiritualidade, o que temos sido convenientemente muito pouco incentivados a fazer no sentido do autoconhecimento e da educação da nossa consciência, já que isso não interessa aos poderes dominantes, corremos sérios riscos de acreditar em falsas ideologias disfarçadas de discurso religioso ou cientifico como tantas vezes têm ocorrido ao longo de nossa história, tão notadamente naqueles períodos e momentos mais obscuros da nossa marcha civilizatória.

É preciso refletir seriamente que a cisão cartesiana de Descartes ao invés de ter sido considerada uma abstração útil e simples diferenciação, acabou sendo tomada como “real”, capturando assim subjetividades e as enrijecendo até os dias de hoje num falso dualismo. Entretanto não existe uma separação real entre o mundo objetivo e subjetivo que é a crença central em que se ergueu a ciência moderna, do mesmo modo que não existe uma realidade que seja independente do observador. Isso foi um falseamento da realidade! Uma obliteração da verdade, com consequências gravíssimas para a humanidade e para o planeta, pois é a partir daí que rompemos com a nossa dimensão interna, afetiva, valorativa e humana e passamos a causar danos e a progredir cientifica e tecnologicamente destruindo o próprio meio em que vivemos com base naquilo que talvez tenha se tornado ao longo do tempo um dos maiores engôdos da história da humanidade desde o seu marco na Idade Média, que é essa ilusão de separação!

Essa vem sendo também a ideia central que tem incentivado fundamentalistas e dogmáticos de todas as partes em duelos de objetivistas versus subjetivistas: desde religiosos fanáticos e fervorosos; a acadêmicos teoristas, pretensos donos do saber com suas contradições racionalistas relativistas; até os cientistas ortodoxos e reducionistas de todos os tipos, com os seus sectarismos e intolerâncias; todos uns contra os outros em suas cansativas e dualísticas disputas de poder e de ego para ver quem detém a primazia da “realidade” para sobrepujar e impor aos demais.

É nesse lastro que ainda hoje se discute Ciência versus Deus, Ciência versus Religião, Religião A x Religião B, Filosofia x Ciência, etc. Discute-se até se a Psicologia é científica mesmo ou não. Ou se a Psicanálise de Freud é cientifica ou não. Se as Terapias Complementares, Reiki, Florais, Fitoterápicos, Astrologia, etc., são válidas ou não. Se a Regressão de Memória ou o método de Terapia de Revivência Transpessoal é aceita pelos Conselhos ou não, e assim por diante. Todas essas discussões de modo geral estão ligadas ao dualismo cartesiano, a separação de um mundo natural, físico, biológico, objetivo, quantitativo de um mundo subjetivo, mental, qualitativo, da consciência e da experiência interior.

E infelizmente, muitos cientistas materialistas em suas versões repaginadas atuais ainda não evoluíram para além da Idade Média e continuam brigando com a religião e a filosofia pela supremacia da realidade. Seus métodos dão a aparência de ter avançado, mas a crença central que os move continua sendo a mesma, congelada no tempo medieval e polarizada numa dicotômica ilusão de objetividade que ignora a fé em seus próprios critérios e alegações conceituais e subjetivas, ou seja, suas próprias crenças, interpretações e percepções de como deva ser a realidade imputadas em seus experimentos a que atribuem provas de caráter universal e de irrefutabilidade, para assim continuarem buscando explicações causais somente no plano material, delirando em uma espécie de “esquizofrenia do avesso”, que é como deveria ser chamada essa perigosa doença do cientificismo materialista de quem atribui realidade causal apenas ao mundo físico, empestando o mundo de construções artificiais nocivas ao meio-ambiente, aos seres que o habitam e aos ecossistemas em geral.

Numa visão de ciência mecanizada como essa, que exclui parte fundamental do que nos define como humanos: nossas emoções e sentimentos, nossa cultura, contexto e historicidade, acabamos todos coisificados, podendo ser padronizados, condicionados, pasteurizados, usados, quantificados e subvertidos em máquinas de consumo e descarte.

Além do que, o discurso cartesiano de prova e comprovação, disfarçadamente impositivo e já bastante enraizado em todos nós, tende a nos exigir passividade e negação de nossos próprios sentimentos e experiências pessoais, favorecendo todo e qualquer tipo de regime autoritário.

Assim, se no passado e ainda mais atualmente a intolerância religiosa baseada em fé cega em escrituras tem causado guerras, genocídios, conflitos e terríveis violências ao redor do mundo, a ciência cartesiana desde seu advento na Idade Média em sua fé cega numa suposta objetividade não ficou atrás e tem colaborado para sofisticar e validar outros conflitos, armar as guerras e dotá-las de tecnologias mortíferas, hoje capazes de destruir toda a vida planetária com o simples apertar de um botão!

“Nos últimos séculos nós temos desenvolvido uma ciência, uma tecnologia fabulosas, espetaculares, maquininhas fantásticas! Porém, não houve o correlato desenvolvimento das dimensões psíquica, emocional, valorativa, ética, noética e o despertar espiritual. Temos uma tecnologia e ciência incríveis, sem alma, sem coração, sem espírito, como uma espada de Dâmocles presa por um fio de cabelo sobre a cabeça da humanidade” (Roberto Crema, Liderança no Séc. XXI, 1998)

Ademais, convém ressaltar que a metodologia cartesiana mesmo em suas derivações atuais ainda nos impõe uma ciência sem consciência e essa tem sido a crítica sistemática do filósofo David Chalmers ao chamar atenção para o fato de que as explicações reducionistas quase sempre no âmbito da ciência cognitiva ou das neurociências desviam-se da verdadeira natureza do problema da consciência e da experiência interior, pois não existe nenhuma função cognitiva que explique diretamente a experiência consciente e nenhum fato do mundo, mesmo num nível microfísico, implica necessariamente na produção de estados conscientesA consciência está para além de sua base física e o problema da experiência consciente requer algo mais do que explicar o desempenho de suas funções. Ou seja, a experiência interior não pode ser reduzida aos processos cerebrais das neurociências e da biologia como insistem seus defensores.

Portanto, o paradigma cartesiano falhou em dar conta do conhecimento pelo fato de que ignorou o sujeito e sua dimensão subjetiva e a Modernidade da ciência é a “morte do sujeito” em nome de uma racionalidade que vem negando todas as dimensões humanas que estão para além da razão: “a psíquica, a emocional, a valorativa, a ética, a noética, a espiritual”, conforme terminologia do psicólogo e antropólogo Roberto Crema.

É por isso que pensadores contemporâneos como Pierre Lévy, consideram que se faz urgente inventariar todo o conhecimento, rumo a uma nova epistemologia da ciência, pois com o advento da própria pós-modernidade e a desconstrução do modelo cartesiano, associadas às descobertas da física quântica como a influência do observador nos fenômenos investigados, além da maior interatividade entre o pensamento do ocidente e do oriente, a noção de método científico tradicional ruiu ainda mais concretamente e hoje seria mais correto se falar em termos de múltiplos métodos de se fazer ciência, abrindo espaço a todo um campo novo de vivências, conhecimentos e saberes.

E é a luz dessa abertura e livres de todo e qualquer tipo de reducionismo que veremos como podem se inserir e como podem ser investigadas, testadas e referendadas mais sistematicamente as experiências espirituais e de estados alterados de consciência como as próprias revivências transpessoais, assim também como, as terapêuticas complementares, as práticas contemplativas, intuitivas, ancestrais, etc., enfim, todas àquelas práticas cuja validação dependa da primazia da experiência interior dentro da perspectiva de uma ciência mais ampla. Uma ciência com consciência.