terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Menos Estado, mais educação e consciência

É claro que precisamos estar dispostos a ajudar o próximo, só que isso independe de classe social, pois a carência de consciência é geral. A pior miséria é a falta de amor, pois essa gera uma estreiteza de consciência. Não se trata de tirar dos ricos para dar aos pobres, mas de educar para conscientizar afetivamente desde os mais ricos até os mais pobres para o fato de que a criação de mecanismos de solidariedade e educação pode ser auspiciosa e beneficiar a todos.

Se somos contra indivíduos mais ricos explorarem os mais pobres através de mecanismos econômicos coercitivos, também deveríamos por coerência ser contra que mecanismos intervencionistas estatais sejam usados para que os pobres fiquem dependentes do governo recebendo por meios extorsivos legalizados ao invés de solidários e a despeito do que pensem todos os que trabalham e pagam impostos.

Portanto, é inviável ser a favor de um assistencialismo populista que tenha caráter eleitoreiro e infantilize psicologicamente o outro e que ainda por cima se baseie exatamente na mesma lógica perversa e coercitiva que criou o problema, para começo de conversa. Quanto mais o Estado puder se limitar aos direitos universais, priorizando educação, saúde e segurança, e liberar a iniciativa privada para gerar oportunidades e empregos, mais as pessoas podem se capacitar, se responsabilizar e encontrar soluções por si mesmas. Ainda assim, se considerarmos que subsídios sejam necessários como, por exemplo, em casos de extrema pobreza ou outros, então programas sociais em caráter provisório e sob certas condições e exigências podem ser utilizados, desde que tenham tempo determinado. Até porque, é sempre um risco que esse tipo de programas seja manipulado e usado por governos demagógicos ou corrutos. 

Prova disso, é que tais programas seguem sempre uma mesma lógica de criação de castas diferenciadas, baseada em direitos de segunda, terceira e até quarta ordem, e que acaba por favorecer também aos luxos e privilégios dos indecentes bolsas "vossa excelência" distribuídos entre os três poderes, num verdadeiro escárnio público legitimado e perpetrado pelo que há de mais vil e imoral no estatismo assistencialista. Onde aqueles designados para servir, se preocupam muito mais em se servir e tirar proveito da sua posição.

Por isso, ao invés de somente esperarmos e defendermos a coerção estatal entre outras dependências poderíamos nos revestir da necessidade de uma educação para a consciência que poderia vir a ser sempre uma escolha de cada indivíduo num mercado mais liberado e menos regulado por um Estado mínimo, laico e de direito. E que permita o empreendendorismo e possibilite optarmos por dirimir as desigualdades sociais desde a criação de mecanismos solidários, passando por incentivos à educação de base, a capacitação dos indivíduos, até chegarmos a prática da auto-responsabilidade, da autovalorização e consciencialização de cada pessoa, de acordo com as suas possibilidades e relações com a sociedade.

Toda e qualquer tentativa demagógica de coerção indevida e sua legitimação, seja de direita ou de esquerda, deve ser identificada e denunciada, mesmo aquela travestida de boas intenções, "politicamente correta" e disfarçadamente lisonjeira a seus proponentes. Assim podemos ajudar o próximo a ajudar a si mesmo através de um arranjo social mais educativo e menos doutrinário e que nos permita buscar o meio termo ou a equidistância entre a "mão nem tão invisível do mercado" e a "mão excessivamente intervencionista estatal", a fim de construirmos uma comunidade mais ética, íntegra e sustentável, ou seja, uma sociedade economicamente viável, ecologicamente correta, socialmente justa, culturalmente diversa e espiritualmente solidária. 

C.G Jung em seu tempo já antevia e alertava-nos sobre os perigos e semelhanças de apenas deslocarmos a servidão a uma pretensa autoridade divina da religião para o socialismo estatal, continuando a nos eximir de responsabilidades ao invés de tomarmos consciência e assumirmos maior protagonismo e autoria sobre nossas vidas.

"Ainda não se pode ver de modo preciso as consequências que poderiam advir de um conhecimento mais geral a respeito do paralelismo fatal entre a religião eclesiástica e a religião de Estado marxista. A exigência de caráter absoluto, representada pelo homem, da civitas Dei é, infelizmente, muito semelhante à ‘divindade’ do Estado. A consequência moral que um INÁCIO DE LOIOLA deduz da autoridade da Igreja (‘o fim santifica os meios’) antecipa a mentira como instrumento político do Estado, de maneira muito perigosa. Tanto um como outro propiciam, por fim, a submissão incondicional à fé, restringindo, portanto, a liberdade do homem perante Deus e diante do Estado, cavando a sepultura do indivíduo. A existência esmagada desse único portador de vida que conhecemos se vê ameaçada por todos os lados, apesar da promessa de uma existência ideal." (Carl Gustav Jung - Presente e futuro)

Jung talvez tenha profetizado sobre o Brasil atual sem saber... Aqui o Estado divinizado pode tudo e o povo nada. E se reclamar, é golpe! Viva a "burocracia" em nome da democracia! O Estado pode cobrar impostos abusivos sobre serviços que não presta contas, pode praticar pedaladas fiscais, atrasar salários de servidores, se favorecer com luxos e privilégios, pode tirar coercitivamente de uns para dar a outros, pode se eleger com caixa dois e mentiras, pode até comprar artistas simpáticos a sua causa e patrocinar movimentos sindicais e sociais para usá-los como tropa de choque e massa de manobra. Também pode insuflar luta de classes, roubar, dilapidar, corromper, ser corrompido, vender o país para banqueiros, construtoras e elite corporativa "amiga". Pode até decretar crime ambiental como tragédia natural... Enfim, ao Estado tudo é permitido, inclusive vender a alma da nação para o "demo" se for o caso e fazer o diabo a quatro perante o impávido colosso.

E ainda assim terá defensores ferrenhos entre os seus devotos mais fiéis, satisfeitos que parecem estar em trabalhar quatro meses no ano só para sustentá-lo, inclusive os luxos de seus representantes. Também angariará defensores entre os intelectuais e acadêmicos que dissimuladamente simpatizam com a "coerção" sempre que essa favoreça as suas ideologias; assim como, brigarão pelo Estado todos àqueles que não querem a auto-responsabilidade, preferindo a malandragem do "herói sem caráter" encrustada no imaginário coletivo brasileiro, bem como, a manutenção do "infantilismo" existencial irresponsável, de todos os que querem permanecer deitados em berço esplêndido, mamando feito bebezões no Estado e esperneando feito crianças contrariadas em protestos, fechando ruas e cidades inteiras até serem atendidas, mesmo que em detrimento ao direito de mobilidade de outras pessoas.

Assim fica difícil superarmos a cultura escravocrata que assola o Brasil desde a sua fundação, pois existe uma licenciosa simpatia inconsciente via devoção ou vitimismo que muitos nutrem diante do senhorio, manifestas pela aprovação ou submissão a práticas coercitivas, seja de direita ou de esquerda, e que contribuem para uma perpetua e maliciosa infantilização das massas.

Portanto, quanto mais apelamos ao Estado, pior fica e a deterioração da economia é apenas um sintoma disto, do nosso endividamento inconsciente; do quanto temos sido coniventes como um Estado que trata o povo como incapaz, tirando-lhe a dignidade e alimentando o seu coitadismo. E nos massificamos na mesma medida em que acatamos passiva ou apenas reativamente: a mentira, a demagogia, a coerção, a injustiça, a burocratização e a corrupção, em nos desresponsabilizando perante a nossa própria vida. 

O contrário disso seria então admitirmos a necessidade de desenvolvermos tanto conhecimentos, quanto o "autoconhecimento", reconhecendo a centralidade das emoções em nossos saberes e fazeres, e priorizar desde uma educação de base até uma educação para a vida inteira, uma educação para a consciência.


quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Entre psicoterapia e espiritualidade: uma jornada interior do ego rumo à Essência

O ocidente e o oriente se encontram em nossos corações e mentes quando levamos em conta a essência das grandes tradições espirituais da humanidade e que talvez possa ser muito bem resumida pela chamada "regra de ouro" de todas as religiões que nos diz o seguinte: "fazei aos outros o que gostaria que vos fizessem". 


Esse ensinamento central enseja uma relação de interdependência e interligação entre todos os seres, pois, como diria o monge vietnamita Thich Nhat Hanh: "intersomos". Isso nos leva ao desafio do aprendizado ético na relação com outrem e ao desenvolvimento de uma capacidade psicológica, afetiva e empática cada vez mais ampla e consciente para o amor, para a sabedoria e para a compaixão.

Na Grécia antiga, por exemplo, Aristóteles ensinava que a ética ou a excelência moral seria resultante da prática de hábitos e virtudes associadas a uma justa medida ou a razão proporcional entre a emoção e a ação. Para ele, então, os afetos, os sentimentos e as emoções desempenhariam uma função tão importante quanto a razão em nosso desenvolvimento moral e ético. 

Isso implica dizer que a égide da razão e os conhecimentos dela decorrentes não são suficientes na formação educativa da pessoa humana e que a evolução moral e ética dos membros de uma sociedade depende também da educação de suas emoções, da regulação afetiva de seus estados interiores, de seus valores internos e, portanto, de seu autoconhecimento. 


Podemos entender a dimensão de valores de uma pessoa como sinônimo de sua cosmovisão ou espiritualidade e, portanto, relaciona-se também a uma dimensão psicológica de interioridade e consciência. Assim desenvolver a espiritualidade é o mesmo que buscar o autoconhecimento ou a autoconsciência. Em suma, a espiritualidade tem uma relação íntima com os valores humanos e os diferentes níveis de ser-estar no mundo ou cosmovisões. E esse é outro aspecto ou compreensão da essência das grandes tradições da humanidade, a ideia de um multinivelamento ontológico, também conhecido como a "grande cadeia do ser".

Ocorre que esses diferentes níveis podem estar tão amalgamados que se você escutar um budista falando sobre a importância do silêncio e da não-dualidade ou um professor de yoga ou meditação falando sobre o foco no momento presente, você pode passar a pensar que todo o trabalho psicológico é perda de tempo ou que isso está em oposição a trabalhar o passado em terapia, ou integrar a sombra como nos fala Jung ou até acessar estados transpessoais de consciência e assim sucessivamente. 

Veja que esses dias mesmo escutava a palestra de um lama budista em que ele afirmava que um de seus seguidores andava em dúvida entre a Psicologia ou o Budismo devido a alguns choques conflitantes entre as suas diferentes filosofias e que se fosse esse o caso, ele o aconselhava a escolher o Budismo. Entretanto, a letrinha "e" faria milagres nessa situação ao invés de "ou". Afinal, não é preciso escolher entre a Psicologia ou o Budismo, pois você pode aprender com os dois e, na verdade, considerando o que tenho visto por aí de ambas as partes, creio que seria o mais recomendável, principalmente, se observarmos que a maioria dos adeptos de uma área ou outra tende a cair em contradições e ignorar algum aspecto importante da jornada evolutiva ou recair em alguma retórica discursiva de embate entre o absoluto e o relativo.

Um exemplo disso é a resposta de um renomado guru ou yogue americano sobre a relegada e esquecida importância do exercício do perdão no caminho espiritual em que ele responde que essa era uma questão desnecessária pois em última instância não haveria quem ou o que perdoar. O que é um típico exemplo da falácia absoluto versus relativo e de negação do lado sombrio da personalidade relativa a partir do uso de um subterfúgio absolutista para recair numa espécie de inércia pseudo-iluminada.

Por isso tenho afirmado seguidamente que tanto a espiritualidade quanto a meditação ou outras práticas podem ser usadas para despertar a consciência ou para aliená-la num certo sentido, principalmente, quando seus praticantes ignoram a necessidade de um trabalho psicológico mais sistemático com o chamado lado sombra. Como diz o professor de meditação Jack Kornfield "não existe aposentadoria iluminada".

Dizer, por exemplo, num rompante de romantismo espiritual ou chamariz de autoajuda como fazem alguns adeptos de certas tradições que uma base comum a todos é a busca da felicidade é muito bonito e inspirador, o problema é negligenciar que o lado sombrio em cada um tem intenções radicalmente contrárias a essa e que embora a pessoa de modo consciente possa aspirar que isso seja dessa forma, seu inconsciente pode ter várias vozes internas com intenções completamente dissonantes. E que precisam ser consideradas, reveladas, saindo da sombra, ou então irão sabotar nossas melhores intenções e realizações, inclusive quando fora do ambiente meditativo protegido e retirante, voltando ao mundo relativo relacional e de conflitos de polaridades.

Também falar tanto sobre o silêncio, essa ênfase na quietude pode soar contraditório quando se faz longos discursos a respeito e se negligencia outras facetas de nossa caminhada espiritual como percebo em algumas correntes espirituais mais tradicionalistas. Ou seja, o silêncio por si só não se basta. Se bastasse, não se precisaria falar tanto dele. Claro que é necessário falar do silêncio bem como praticá-lo e concordo plenamente com esse ponto. Apoio inclusive quando Sri Aurobindo afirma que "se pensar é uma dádiva, não-pensar é uma dádiva maior ainda", e no entanto, como ele também afirma, nada disso exclui a necessidade de que também é preciso falar sobre aquilo que criamos quando não estamos silentes a partir do que intencionamos, pensamos, sentimos e fazemos. Em outros termos, entre o eu e o não-eu existem muitos eus que negamos e que nos influenciam.

"Em um certo sentido, nós não somos mais que uma massa complexa de hábitos mentais, nervosos e físicos, unidos por umas poucas idéias, desejos e associações reguladores – um amálgama de muitas pequenas forças auto-repetidoras com algumas poucas vibrações maiores." (Aurobindo in Satprem, Sri Aurobindo, ou a Aventura da Consciência)

Mas será que seria preciso integralizar toda essa massa de eus ou pequenas forças repetidoras? Diria que não necessariamente, pois esses milhares de eus participam de uma simbiose inconsciente estando todos interligados a alguns determinados padrões de comportamento que afetam nossas vidas de modo dramático. Então, trabalhar na transformação desses padrões de condicionamento também é uma necessidade existencial para além de uma suposta iluminação espiritual. E, por isso, a atenção plena, a escuta sensível e o silêncio podem e devem ser exercitadas tanto no modo ativo, quanto passivo através de práticas como a psicoterapia, a regressão e a meditação, entre outras. E é aqui que ocidente e oriente se encontram, onde o trabalho psicológico e a essência da grandes tradições se cruzam e se complementam, se tornando indispensáveis.

"Nós podemos obter talvez um relativo silêncio, mas no momento em que colocamos o pé fora da sala (de meditação) ou de nosso retiro, caímos de novo em nosso habitual clamor e isso significa novamente a eterna separação do dentro e fora, da vida interior e da vida no mundo. (...) Necessitamos de uma vida completa a cada momento, não apenas nas férias ou na reclusão, e para isso, a meditação tradicional não é a solução. (...) A única solução é praticar o silencio da mente lá onde aparentemente é mais difícil, isto é, na rua, no metrô, no trabalho e em todo lugar." (Aurobindo in Satprem, Sri Aurobindo, ou a Aventura da Consciência)

Sidharta Gautama, o Buda Iluminado de modo distinto a muitos de seus seguidores enfatizava o não-eu mas sem ignorar os muitos eus por detrás da nossa personalidade e ego. Tampouco eximia-se de encarar o mal ou o lado escuro do ser humano. Parte de seu processo de iluminação segundo descreve envolveu justamente o enfrentamento e liberação desses eus e do mal, conforme pode ser conferido em Futher Dialogues of the Buddha que foi traduzido para o inglês por Lord Chalmers.

Muito embora os proponentes de uma área ou outra da busca pelo autoconhecimento tenham a tendência a enfatizar mais um desses aspectos referidos ou outro da caminhada espiritual, o que pode ser considerado esperado e até natural dado as inclinações e trajetórias de cada buscador, há um grande número de adeptos de ambos os lados que tende mesmo é a negligenciar o outro, não reconhecendo que a complexidade do ser humano exige uma complementariedade de abordagens na busca espiritual, do mesmo modo que na área da saúde não há um profissional que dê conta de tudo. 

É claro que existem trabalhos que podem se contrapor, divergir entre si, mas há outros que podem se complementar e seria muito mais bonito de ser ver se houvesse mais humildade de todos os envolvidos para admitir isso e reconhecer limites, possibilidades e a necessidade de se intercambiar vivências, saberes e conhecimentos ao invés de se capturar subjetividades, subvertê-las a uma tradição, doutrina, religião e assim institucionalizá-las, a fim de angariar mais e mais seguidores, ao invés de incentivar o despertar do líder que há em cada ser.

Esse é um problema quando as pessoas passam a acreditar que a sua religião, filosofia, tradição ou representantes, mestres, gurus, monges, padres, terapeutas, curadores, psicólogos, médicos ou sacerdotes possam dar conta de todas as respostas e dilemas existenciais e espirituais. Não acredito que alguém possa dar conta de tudo, embora alguns pareçam ter resposta para tudo e ofereçam o seu caminho como o certo ou como aquele que dá conta. A verdade é que tem sido difícil encontrar àqueles que admitam o quanto é inviável dar conta de todo esse espectro de desenvolvimento da consciência, psicológico e mesmo espiritual, tendo em vista que o proselitismo é o mais comum.

Por isso não raro vemos seguidores fragilizados psicologicamente deslumbrados espiritualmente com mestres, gurus, médiuns, terapeutas, canalizadores e curandeiros, um fazendo mais sombra para o outro e uma imensa sombra de adeptos não trabalhada colada "à sombra do guru iluminado" ou do "líder espiritual centralizador". Ninguém está livre dessa armadilha, nem estou falando como alguém acima disso ou isento, toda a comunidade formada em torno de um objetivo em comum precisa estar vigilante e atenta a esse respeito, pois a sombra institucional ou comunitária é sempre maior e mais densa, na medida em que é a soma advinda do lado sombrio de todos os seus membros e lideranças, considerando que a tendência da maioria é regularmente não querer olhar, nem reconhecer essa sombra, seja em si, muito menos em quem admira ou até idolatra em muitos casos.

Assim também se tornou corriqueiro vermos muitos buscadores espirituais terem extrema dificuldade em suportar encarar o seu lado obscuro preferindo se polarizar no pensamento positivo, numa psicologia positiva, na imaginação de luzes e cores e em mensagens consoladoras ou mistificadoras e generalizadoras vindas de alguma fonte espiritual ou espécie de guia sem a suspeita de que forças arquetípicas sombrias em si e em outros podem fazer uso desses canais muito facilmente apresentando-se como entidades benfeitoras e ilusionistas. Esses mecanismos, às vezes, são muito sutis e geralmente estão associados ao fato da pessoa desejar acreditar apenas naquilo que tenha relação a uma espiritualidade "adocicada". Diria que grande parte das pessoas e de movimentos humanos, religiosos e espiritualistas está enredada em maior ou menor grau na negação de sua sombra, buscando uma felicidade maníaca, idealizada ou polarizada.

O difícil nesses casos é que a pessoa se escora nos aspectos inspiradores e mensagens edificantes advindas dessas fontes para simplesmente não olhar para o seu lado escuro, afinal existe sempre a desculpa de que ele é ruim, negativo, malévolo. Assim muitos não resistem aos bons encantadores de platéia e aos ilusionismos de adoração a mestres, gurus, curadores, terapeutas, canalizadores, etc. Discernir quem é quem nesse meio certamente não é tarefa fácil, mas a ingenuidade da maioria salta aos olhos. A verdade é que evoluir dá muito mais trabalho do que muitos gostariam de admitir, e é simplesmente complicado se tornar um ser humano mais pleno, íntegro, pois é preciso extrair a simplicidade da complexidade para exercitar a presença que nos conecta ao aqui e o agora.

Por outro lado, simplicidade não implica em reducionismo, valendo então alertar para o fato de que existem métodos de meditação modernos e ocidentalizados que obliteram a espiritualidade e preconizam uma atenção apenas corporalizada e muito centrada na técnica e não necessariamente em ensinamentos ou no treinamento de virtudes de modo que a essência das tradições espirituais da humanidade é desconsiderada e obviamente o trabalho com o lado sombra ignorado. Isso sempre pode recair numa tentadora e perigosa forma de alienação ou escapismo meditativo. Tudo óbvio, depende da orientação, depende de instrutores e praticantes, mas marketing ostensivo associado ao reducionismo às biociências e a meditação sendo vendida e servindo a algum tipo de utilitarismo me parece ser uma combinação limitante e, por ventura, até danosa. Mais uma nova versão ocidental de materialismo espiritual, tipicamente, como já fora feito outrora com a yoga que acabou sendo convertida tão somente em atividade física, desvinculada de outros ensinamentos. 

Tenho defendido em contrapartida que a psicoterapia, a regressão e a meditação são formas complementares de desenvolvimento da atenção plena, de uma consciência presente ou autoconsciência que surge a partir dessa combinação multinível e integralizadora que pode também demandar outros tipos de práticas que possam vir a se coadunar. 

Portanto, a psicoterapia, a regressão e a meditação podem ser utilizadas como práticas para exercitarmos o presenciamento, constituindo um trabalho que tem como objetivo conciliar a terapia ao meditar e a revivência transpessoal enquanto modos de descondicionamento psicológico e de exercício da plena presença na vida diária em prol da transformação integral do ser e da conexão com a essência existente em cada um que subjaz encoberta pela nossa falta de contato com a nossa natureza inconsciente tanto em seus domínios inferiores ou subconscientes, quanto superiores ou supraconscientes.


"Essa consciência e esse domínio são sumamente importantes, pois o subconsciente é o Inconsciente no processo de tornar-se consciente; é o esteio e até mesmo a raiz das partes inferiores do nosso ser e dos movimentos dessas partes. Sustenta e reforça todas as coisas que, em nós, aferram-se ao estado atual e recusam-se a mudar - as mecânicas recorrências de pensamentos obtusos, a persistência obstinada de certos sentimentos, sensações, impulsos e propensões, a rigidez descontrolada do nosso caráter. O animal em nós - também o infernal -   tem a sua toca, o seu esconderijo, na densa selva da subconsciência. Penetrar nessa selva, iluminá-la e dominá-la, são requisitos indispensáveis para perfeição de qualquer vida superior, para a transformação integral da natureza." (Sri Aurobindo, The Life Divine, pgs. 734 e 735)

Então, para exercitar a presença integral é preciso conciliar o passado e o futuro ao presente. O subconsciente e o supraconsciente ao consciente. É preciso integrar o corpo, a mente e o espírito. O físico, o emocional, o mental ao espiritual. Integrar o organismo biológico, às emoções, os pensamentos, ao silêncio, ao amor que unifica todas as polaridades, ao não-dual, ao Mistério. É preciso, afinal de contas, integrar o bem e o mal, o interior e o exterior, o lado luz ao lado sombra, a ação e a não-ação, abrindo espaço para a Essência nos corações e mentes de cada um de nós e em direção ao servir e a modos de vida mais genuínos, autênticos e transformadores.



segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Da Síndrome de Estocolmo no Brasil em direção ao Grande Sol do Leste

A falta de um trabalho mais detido e aprofundado com o seu próprio lado sombra psicológico leva o ser humano a duas formas de patologia perigosas e difíceis de serem reconhecidas, mas que são bastante recorrentes e até mais comuns em nossas relações sociais do que se imagina, que são a dissonância cognitiva e a Síndrome de Estocolmo

A dissonância cognitiva pode resultar na tendência a negação de evidências e a outros mecanismos de defesa do ego para manutenção de uma crença mais obstinada, fazendo com que a pessoa tenha a reação de rechaçar crenças opostas e a contrariar mesmo o nível mais básico da lógica, podendo não querer enxergar evidências, distorcer percepções e até mesmo a desencadear algum nível de perda de contato com os fatos e a realidade.

Já na Síndrome de Estocolmo ocorre uma simbiose comportamental em que o oprimido passa a apresentar lealdade e até mesmo simpatia e afeto pelo seu opressor. Isso pode chegar ao ponto de levar a pessoa a uma visão distorcida daqueles que denunciam o problema e venham a oferecer ajuda, podendo passar a ser encarados até como opositores, já que a percepção da realidade da pessoa está subvertida. 

Se pensarmos nessas psicopatologias em termos coletivos vamos perceber que a relação mantida entre uma sociedade e um Estado repressivo tende a ser de dependência, onde um retroalimenta as demandas do outro, numa espécie de parasitismo social. Esse servilismo abre espaço para a manipulação e para a aceitação de medidas danosas sem maiores questionamentos, bem como, o rápido esquecimento ou uma indolência diante de acontecimentos tidos como repressores.

Podemos citar exemplos dessas disfunções comportamentais a partir de uma leitura da crise de valores que assola o Brasil e a captura pela sombra dos nossos princípios morais através dos direitos humanos que viraram direitos desumanos ou de bandidos, numa sociedade que se tornou protecionista com a brutalidade e excessivamente perdulária, tamanho é o grau de dissonância ou confusão a que está exposta e inconsciente a maior parte da população e, por consequência, nossas instituições que em sua busca pelo "politicamente correto" têm incorrido em verdadeiras incoerências, distorções e inversões de valores. 

Sequestre uma nação, oprima e acostume o seu povo com o cativeiro, mas também ofereça-lhe cuidados, regalias ou supostos programas sociais, torne assim milhares dependentes do Estado, principalmente os seus membros mais carentes, necessitados e fragilizados, que se contentarão e mais tarde se converterão em verdadeiros defensores de seus supostos benefícios e de seus próprios opressores ao invés de encararem todo e qualquer tipo de desafio ao seu desenvolvimento, a sua maturidade, a sua educação, ao acesso a um trabalho digno e a auto-responsabilidade. 

Quando o Estado ou qualquer pessoa adota a prática sistemática de oferecer qualquer tipo de benefício a alguém sem a devida composição de deveres, condições e responsabilidades, dada a ambivalência humana, acaba por reforçar perversamente o lado obscuro do beneficiário, infantilizando-o, ou incentivando a sua "coitadização", acomodação, vitimização, incapacitação, malandragem, preguiça, etc., enfim, toda uma dinâmica psicológica que vai contra a própria dignidade e o desenvolvimento do potencial humano do outro. Direitos e benefícios devem vir acompanhados de deveres e responsabilidades, ou não passam de medidas populistas, ou seja, falsa ajuda, paternalismo e assistencialismo, a incentivar a manutenção do atual estado das coisas e não o crescimento do outro e da nação, mas sim a sua dependência e servidão, retroalimentando àqueles que desejam se manter no poder.

Um Estado assistencialista e intervencionista demais gera uma cultura de submissão por meio de coerções ou distorções no mercado de trabalho que são contrárias ao crescimento psicológico e econômico de seus membros e sociedade. Quando o instinto de realização ou criação é incentivado nas pessoas, a liberdade e a criatividade se tornam os valores mais preciosos. Quando, ao contrário, o medo e a insegurança são insuflados, a dependência e a estabilidade surgem como os valores mais buscados.

Ao elevar as dificuldades para o surgimento de empregos para trabalhadores, ainda mais para os que carecem de acesso a educação e mais tarde de qualificação, o governo e a legislação trabalhista inibem a iniciativa privada, ao invés de conceder-lhes incentivos para que criem empregos e oportunidades. Afinal, não é contraditório onerar justo os empreendedores que podem ajudar a melhorar esse quadro para os trabalhadores? Assim, as agências reguladoras do governo atuam como cartéis restringindo o mercado, implementando agendas que interessam ao elitismo corporativista que consegue burlar tais mecanismos para se favorecer, ou então, para associar-se ao governo na criação de monopólios e oligopólios. Em sua própria dissonância cognitiva, nossos governantes vendem seu próprio pais e nação para servir aos seus interesses e aos dos donos de transnacionais, numa cadeia de servidão ao poder cujo ciclo parece circunscrever forças arquetípicas obscuras e sombrias que ensejam verdadeiros pactos faustianos

Nesse aspecto, o dito socialismo revolucionário que clama sempre por mais intervenção estatal não passa de um discurso demagógico. A tendência do socialismo é a coerção institucional por meio da qual se pretende que um órgão estatal planejador e onisciente se encarregue de todas as tarefas supostamente necessárias para se coordenar toda a sociedade, resvalando para o totalitarismo. Isso supostamente em oposição ao liberalismo econômico que defenderia o livre mercado capital, favorecendo os grandes conglomerados econômicos. Na prática, vemos o oposto, pois governos em conluio com corporações é que geram monopólios e oligopólios, centralizando o poder e explorando nações. Portanto, esses sistemas aparentemente antagônicos: capitalismo e socialismo, na verdade, vem sendo usados de modo falsificado para manipular os povos e deslocar o poder de coerção de um agente externo para o outro, mas sem a devida precaução com uma verdade interior expressa no histórico alerta do filósofo Friedrich Nietzsche de que "o poder é o demônio da humanidade" e que a sua concentração seja no estado ou no capital, nos retira a liberdade e torna-se desumanizante. 

A quem compete equalizar essas forças ou mediar essas relações de poder? A verdade é que nenhum regime funcionará sem uma educação para a consciência, sem o investimento em nossa dimensão interior e humanizadora. Nem mesmo a democracia, a república ou qualquer outro sistema. Só que essa talvez essa educação nunca vá ser oferecida por governos ou elites. Talvez precisemos mesmo é inventar uma conscienciocracia. Ou seja, o reconhecimento consciente de que, em sua essência , a educação não é um direito social. Fundamentalmente, educar-se é um dever de cada individuo. 

Fica a esperança de que nós, os reféns desses sistemas opressores despertemos cada vez mais e em maior número, nos dando conta da prisão em que voluntariamente nos colocamos. Afinal, um doente precisa admitir que está doente para buscar se curar. Convém que os viciados em punição queiram o tratamento para a sua própria liberação. É preciso querer se libertar de todo o deslumbre e apego ao poder que é também um vício pelo sofrer. Como diria Ítalo Calvino em sua obra "As Cidades Invisíveis":


"O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço." 

Que possamos trilhar novos caminhos e orientar o nosso coração desde a Síndrome de Estocolmo no Brasil em direção ao Grande Sol do Leste, aquele que representa nas tradições espirituais, a visão de um mundo sagrado e a prática de uma sociedade iluminada, guiada para o amor.


quarta-feira, 2 de setembro de 2015

O mal-estar no Brasil em seu desgoverno das sombras como oportunidade de transformação


Se observarmos com atenção o contraste entre as politicas historicamente implementadas no Brasil, vamos perceber que os partidos são diferentes mas o desgoverno é o mesmo apenas com agendas ou modos aparentemente diversos de desgovernar, mas que sempre almejam um objetivo em comum, ou seja: gerar crises, tensões sociais e atender a interesses particulares ou de megacorporações.

Sim, todo o desgoverno é programado para gerar crises e lucros para poucos e não por imperícia, mas por vontade política, por falta de ética e consciência dos envolvidos. Porque enquanto você discute com o seu vizinho petista e o xinga de petralha e ele devolve o insulto te xingando de coxinha, uma minoria dominante já comprou os dois lados com financiamentos de campanha e se esbalda no poder lucrando com todo e qualquer tipo de crise, corrupção e troca de favores.

Tenho afirmado que para falar sobre a politica-econômica é preciso entender também de psicopatologia, principalmente sobre os conceitos de psicopatia e sociopatia, ou seja, sobre os valores deturpados que imperam nas sociedades e suas relações íntimas com o nosso comportamento e dimensão de interioridade profunda, principalmente com aquilo que negamos e não nos apropriamos, permanecendo inconscientes. É assim que abrigamos forças sombrias em nosso interior, cegos de nós mesmos, alheios ao fato de que quem não se confronta com a sua própria sombra, também não a reconhece no outro e é incapaz de saber posicionar-se apropriadamente frente aos ardis sociais correlacionados a lógica predatória das sombras, deixando-se ludibriar e sofrer voluntariamente. Ou conforme nos afirma o analista junguiano James Hollis:


"Muitos, hoje em dia, não se importam em examinar de onde suas vidas diárias são geradas; muitos não consideram o relacionamento entre a psique individual e os enredamentos sociais e políticos que nós tecemos; muitos não consideram como nossa própria psique se traduz e, até mesmo; transfere sua imagem para o cosmos. (...)Aqueles que não levam em consideração as implicações da alma humana dividida permanecem inconscientes e são, dessa forma, perigosos a si mesmos e aos outros. Aqueles que se importam em parar, olhar e perguntar por que, ficam cada vez mais afinados com a complexidade de seus próprios processos psicológicos; suas vidas tornam-se mais interessantes e eles tornam-se menos perigosos a eles próprios e ao outros." (James Hollis - A Sombra Interior - Por que pessoas boas fazem coisas ruins? -  pgs. 12-13)

A revolta das pessoas contra os desgovernos municipais, estaduais e federais no Brasil é justificada. Acredito que se vivêssemos num viés um pouco mais consciente e apartidário, o impeachment  e a demissão generalizada da atual classe politica, salvo raras exceções, seria um imperativo. Entretanto, o problema ainda estaria longe de ser resolvido, pois é sistêmico e muito mais amplo e arraigado em nossas estruturas psicológicas e sociais, tendo em vista que a corrupção é endêmica e, portanto, conta com a nossa licenciosidade diante dela. O fato é que temos sido seus cúmplices, mesmo que por omissão ou inconsciência, por não olharmos mais a sério dentro de nós mesmos e ainda não termos aprendido, nem encontrado novas formas de nos posicionarmos frente aos nossos direitos e deveres. 

Esse quadro obviamente não vai se modificar, enquanto permanecermos na mesmice de nossas reações e condicionamentos, que se alternam entre a apatia, o pessimismo, a revolta, a procrastinação, o vitimismo, a autoindulgência, a distração, apenas para falar de algumas das formas reativas mais comuns de "rebeldia inócua" frente a qualquer sistema. 

Não precisamos desistir do país, pois o momento é de transformar a crise em oportunidade de revisão a fundo de nossos modos de vida e valores. No Brasil, o próprio sistema político e os três poderes estão corrompidos pelo fato de que nossos valores estão invertidos e quando isso ocorre sistematicamente temos o quadro desolador atual onde o Estado é um imenso parasita sombrio a sugar a todos para manter as suas regalias, vantagens, auxílios disso e daquilo, bolsas isso ou aquilo, ajudas de custo esdrúxulas, dentre muitas outras indecências e imoralidades que numa sociedade mais justa e humanitária deveriam ser consideradas exploratórias, mas que aqui não parecem fazer corar nenhum político, juiz, desembargador, etc. O que transparece é que essas pessoas consideram natural gozar de todos esses benefícios muito acima dos reles mortais, como se fossem uma "realeza", semi-deuses, uma elite que ostenta privilégios muito além da conta no comparativo com outras categorias de trabalho, infelizmente, mostrando estarem lá muito mais inebriados por "poder" do que pelo compromisso com qualquer causa social ou popular, salvo raras exceções. 

E no entanto, onde estão àqueles dispostos a abrir mão dos "excessos" de privilégios para exercer qualquer cargo público? Essa orgia de privilégios para qualquer classe, ainda mais a política, dificilmente irá atrair para a politica pública gente comprometida com o "bem comum" pois o próprio regime aristocrático estabelecido é evidência irrefutável do contrário.

O Estado assim constituído serve a si mesmo e não ao povo. O Estado tem sido inimigo do povo e o nosso sistema de poderes da maneira como está organizado tende a atrair e a facilitar a chegada a postos de vital importância político-social a todo o tipo de demagogos, oportunistas, narcisistas, elitistas, corruptos, golpistas, sociopatas, psicopatas, megalomaníacos e prestidigitadores, atraídos que são pela lascívia e pelos deleites de estar no poder num país que tolera demais, diria até doentiamente, a luxúria, as imoralidades e ilegalidades de seus dirigentes.  

Na Suécia, tão comentada ultimamente como exemplo de sociedade mais organizada e civilizada, ainda mais se comparada ao caos social e ao estado de guerra civil ou luta de classes em que vivemos aqui no Brasil, foi implementado um sistema de equiparação salarial sem tantas discrepâncias entre o que recebem os diferentes trabalhadores, incluindo aí, a classe politica e os poderes estatais: executivo, legislativo e judiciário, que não regozijam de quaisquer excessos de regalias, benefícios extra ou penduricalhos em seus ordenados. Medidas preventivas foram tomadas para minimizar ou evitar justamente que sociopatas e psicopatas fossem atraídos ou chegassem ao poder para se locupletar, diminuindo assim as desigualdades e concentração de poder. 

Infelizmente, em nosso país tem sido ao contrário. Por aqui, os criminosos de colarinho branco infestam o poder público e privado, conforme mostram as operações Zelotes e Lava-Jato, de modo que as desigualdades só aumentam e com isso a taxa de criminalidade sobe, tornando a população refém da violência e da crise de valores que assola nossas instituições que digladiam-se em suas ideologias cheias de contradição, mostrando-se inoperantes perante o quadro de violência que tem se tornado cada vez mais aterrador, atingindo a todos nós pela total omissão ou conivência das autoridades políticas que só fazem aumentar e cobrar impostos cada vez mais abusivos para, em sua lógica perversa e malfeitora, em troca nos oferecer serviços precários de urbanização, segurança, educação e saúde, num crime de lesa aos contribuintes que tem permanecido impune em sua vil arbitrariedade. Cada vez mais precisamos pensar modos de exercitarmos nossa cidadania e buscarmos através de mecanismos legais, seja por ações individuais ou conjuntas, os nossos direitos na justiça contra o Estado, seja em nível municipal, estadual, federal e até recorrendo a organismos internacionais. Se o direito é para quem requer, vamos precisar sair do comodismo e da inércia e aprender a requerê-lo então.

Afinal, que tipo de dirigentes, lideranças e colaboradores nos três poderes instituídos, e ainda mais nos seus altos escalões, podem ser atraídos ou vir a se tornarem autoridades num sistema que está corrompido em suas bases, onde se pratica o auto-favorecimento inescrupulosamente, onde se vota pelo aumento dos próprios salários, entre outras velhacarias e proveitos ultrajantes? Que políticos teremos que escolher nas eleições se desde obscuros financiamentos de campanha só conseguem se destacar os candidatos e partidos com marketing ostensivo, ou seja, aqueles que mais devíamos desconfiar estarem se deixando corromper e se vendendo a grandes corporações da qual a mídia oficial é mero braço atuante? 

Enquanto isso nos ausentamos de nossas vidas pelo culto a celebridades, consumismo e outras miríades de distrações que essa mesma mídia oferece, além de seus valores distorcidos e sua hipnose de massa. E nós ainda aplaudimos isso ou simplesmente nos acostumamos a essa total inversão de valores em que feito desmiolados, acreditamos que ser rico ou milionário é ser bem-sucedido, onde a "ostentação" é moda e estilo de vida a ser seguido. 

"A disposição para admirar e quase idolatrar os ricos e poderosos - e para desprezar ou pelo menos negligenciar pessoas de condição pobre ou miserável - é a grande causa, e a mais universal, da corrupção de nossos sentimentos morais." (Adam Smith)

Ora, a desigualdade é inevitável, assim como as diferenças. No entanto, o que sou contra é a existência de grandes disparidades que podem gerar perigosas concentrações de poder e que não se justificam moralmente por lógica nenhuma que não seja a da ambição desmedida de alguns ou o buraco negro existencial da falta de afeto e humanidade que se encontre dentro de alguém, onde o poder só faz alargar o egocentrismo, se tornando desumanizador.  


Não há dinheiro ou poder que seja suficiente nesses casos, nunca houve e nunca haverá e, no entanto, em maior ou menor escala, as pessoas continuam acreditando nessa quimera, possuídas pelo desejo de possuir que na verdade as possui e as faz continuar acumulando posses, nem que para isso tenham que explorar os outros e consumir todos os recursos do próprio planeta em que habitam.

Precisamos de uma profunda reforma política no país que é antes de mais nada, uma reforma na consciência de cada um e de todos nós. Precisamos de gente mais disposta a assumir a responsabilidade e engajar-se em mudar a si e os seus fazeres para atuar socialmente ao invés de esperar por algum tipo de liderança salvadora nas próximas eleições ou ficar apenas reclamando, batendo panela ou fazendo greve e protestos. Algumas dessas práticas até são legítimas, mas têm se mostrado insuficientes, pois não são transformativas e logo tudo se repete... você não nota como ciclicamente se repete? Ainda não viu o suficiente disso? 

Precisamos ir além e nos refazermos sempre a partir de dentro a fim de buscar ações individuais e coletivas ou caminhos de reivindicação de direitos dentro e através das próprias imediações e instituições estabelecidas em que circulamos, pensando coletivamente e atuando localmente dentro de nossas possibilidades. Precisamos mais gente de ação e de menos reclamação, gente que acredite e trabalhe firme para se autoconhecer e encontrar novos modos de posicionamento para contribuir com a sociedade sem recair nos extremos condicionados da passividade e da irascibilidade. Podemos começar então saindo do automatismo comportamental em direção a autoconsciência que nos permite ser mais criativos, lúcidos e atuantes, fazendo a nossa parte para a mudança que queremos ver a nossa volta e em nossas vidas e que começa sempre pelo nosso interior.

sábado, 1 de agosto de 2015

A dificuldade de engravidar dos casais contemporâneos à luz da psicoterapia transpessoal

Uma das queixas que tem se tornado cada vez mais frequentes no consultório é a busca principalmente pelas mulheres para tratar as dificuldades psicológicas ou o sofrimento psíquico decorrentes do fato de não estarem conseguindo engravidar. 

Esse tipo de impedimento tende a gerar muitos conflitos íntimos aos cônjuges e tensões na própria relação do casal que a partir de então vê seu casamento afetado dramaticamente, bem como, as próprias relações familiares e amizades, tendo em vista as expectativas, cobranças e frustrações que com o passar do tempo vão se tornando cada vez maiores. Em alguns casos, pode tornar-se difícil e aflitivo até mesmo conviver e suportar a simples lembrança disso pelos comentários em família ou inevitáveis comparativos com os amigos, vizinhos e parentes mais próximos, alguns dos quais vão tendo seus filhos sem parecer enfrentar a mesma dificuldade. 

Devido a nossa cultura materialista que privilegia uma visão reducionista em saúde baseada em falsas premissas científicas e muita propaganda corporativa, a busca exclusiva por tratamentos médicos é o mais comum e poucos se atentam ao fato de que podem precisar suporte psicológico ou até mesmo se beneficiar optando por alternativas terapêuticas substitutas menos invasivas, dispendiosas, desgastantes ou sofridas do que procedimentos de inseminação artificial ou tratamentos bioquímicos, ou ainda, conforme indicaria, buscando terapêuticas complementares que possam potencializar a intervenção médica, numa visão de tratamento multinível que contemple a pessoa como um todo, cuidando não só de seu organismo biológico, mas também de sua dimensão afetiva, psicológica, social e espiritual, numa visão mais integral de saúde.

Entre essas alternativas insere-se a psicoterapia de orientação transpessoal e o uso da técnica de regressão de memória que tem apresentado resultados bastante eficientes no tratamento da dificuldade de engravidar, ajudando muitas mulheres e casais a realizarem o tão esperado sonho de darem a luz ao seu bebê. 

A psicologia transpessoal trabalha numa perspectiva integral em saúde onde se considera importante levarmos em conta não só a dimensão biológica, mas também as dimensões psicossociais e até a espiritualidade que é seu grande diferencial em relação às abordagens mais tradicionais na medicina, psicologia e na área da saúde. 

Dentre as várias técnicas que podem ser utilizadas, destacaria principalmente a Terapia de Revivência Transpessoal, um método de regressão que tem ajudado muitas pessoas a superarem seus conflitos, bloqueios e sofrimentos, inclusive em relação a dificuldade de engravidar que em nossa visão e experiência profissional não é apenas uma disfunção biológica, na medida em que também pode apresentar uma série de variáveis psicológicas, sociais e até espirituais, conforme temos constatado em casos tratados com sucesso e que podem ser confirmados através da evidência clínica. 

Constatamos que quanto mais um casal estiver afastado de sua natureza afetiva, intuitiva, de suas emoções, de sua interioridade e do aspecto feminino psicológico da relação, mais se afasta das raízes biológicas do amor prejudicando a sua fertilidade. Esse afastamento pode se dar de modo inconsciente a fim de atender as demandas da sociedade, as muitas exigências da vida adulta e do mercado de trabalho, tornando o problema difícil de ser diagnosticado, já que o casal pode levar uma vida “normal” e conveniente do ponto de vista social, e, no entanto, tão “normal” quanto malsã do ponto vista psicológico e espiritual já que não é sadio ser adaptado a uma sociedade adoecida de valores ao inverso e materialista ao extremo. 

Historicamente temos estado dissociados de nossa dimensão de interioridade, afetividade e espiritualidade, seja pela ainda influente pré-modernidade dos dogmas religiosos e suas literalidades supersticiosas, seja pela dominante modernidade dos dogmas cientificistas e suas falácias cartesianas, ou ainda, pela incipiente pós-modernidade dos dogmas intelectuais relativistas e suas contradições niilistas, ou seja, em qualquer época pela tendência humana sombria ao dogmatismo ora pela fé cega, ora pela razão disruptiva e a consequente massificação cultural decorrente da negação dos afetos, do sentir, das emoções profundas, da espiritualidade, cujos sintomas são a perda ou confusão de valores e a degradação e o adoecimento dos nossos relacionamentos em todas as suas esferas, inclusive, claro, em nossa saúde, causando danos no âmbito afetivo-sexual e biológico da reprodução humana conforme vem acontecendo em escala crescente. 

Num viés psicossocial, os condicionamentos comportamentais do ser humano decorrem de influências parentais, histórico-culturais e sociais que num mundo contemporâneo cada vez mais “tecnocratizado” nos coloca perante o paradoxo do uso ou abuso, das perdas ou ganhos da era informacional e tecnológica que tende a nos distanciar de nossa natureza humana implicando na necessidade de resgate de uma ecosofia também de cuidado sensível e orgânico com o nosso ser e estar no mundo. Em termos mais simples e objetivos, pode-se dizer que essa “artificialização” da nossa sociedade tem gerado um afastamento cada vez maior do ser humano de sua natureza, implicando em perdas em vários níveis, inclusive em sua fertilidade, em sua capacidade de se relacionar, de se reproduzir, enfim, em sua capacidade para o amor. E isso precisa ser compensado de algum modo através da busca por um reequilíbrio entre o nosso ser interior e o exterior e pelo desenvolvimento de uma consciência sustentável que nos permita a transição para o uso de tecnologias e energias limpas e recicláveis e modos de vida mais saudáveis e interconectados a teia da vida e seus ecossistemas. 

Isso justifica a necessidade referida antes e a orientação de optarmos por modelos de tratamento e cuidado com a saúde de modo integral, contemplando não só o organismo biológico, mas também a atenção a mente, as emoções, a espiritualidade ou dimensão de valores, em revendo hábitos e padrões de vida que nos reconectem a nossa natureza humana, a partir da ajuda de terapêuticas complementares mais naturais a práticas conscientizadoras que vão desde a busca por cuidados com a saúde individual em vários níveis, ao autoconhecimento, passando então aos cuidados na gestação, a humanização do parto e a revisão de modelos vigentes alicerçados na indústria de mercantilização da saúde. 

Outra mudança histórico-social marcante e influente neste assunto passou a ser a inserção cada vez maior das mulheres no mercado de trabalho na década de setenta que ocasionou uma salutar emancipação feminina e sensíveis avanços para a sociedade, mas que naturalmente como toda e qualquer mudança trouxe em seu lastro uma série de desafios não só as mulheres, mas também aos homens e as relações conjugais e familiares, de modo que novas configurações de relacionamentos foram surgindo e impactando a vida de todos. 

As mulheres vieram agregar a dimensão feminina, intuitiva e sensível a um mercado de trabalho excessivamente masculinizado, técnico e racional de uma sociedade patriarcal hierarquizada, competitiva e dominada historicamente por homens, deste modo, polarizada, desequilibrada em suas relações sociais e agressiva com a própria Natureza (representante do feminino negado e explorado) já bastante devastada e poluída pela filosofia cientificista fria, cartesiana, mecanicista, dessacralizada, tecnocrática e intelectual de progresso sem limites e sem noção de consequências, praticada de modo predominante por homens acostumados a guerrear pelos seus territórios (hoje mercados de trabalho) em nome de dogmas de todos os tipos e a atuarem como provedores de suas famílias, mas pouco afeitos a cuidar de si ou de seu interior, de sua esposa e filhos em sua dimensão afetiva e amorosa, menos ainda, de seu próprio planeta e ecossistemas. 

Ao entrarem num mercado de trabalho de valores patriarcais, muitas mulheres para ser tornarem bem sucedidas precisaram se adaptar, fazer o jogo de poder dos homens e a abrir mão de sua própria feminilidade. Isso afetou e vem afetando a todos os envolvidos, tanto homens, quanto mulheres que precisam buscar então uma redefinição de seus papéis tanto do ponto vista externo: econômico, familiar e social, quanto do ponto de vista interno: emocional, psicológico e espiritual. Essa mudança acabou afastando a mulher de sua natureza biológica maternal que agora precisa ser resgatada na busca por um reequilíbrio, o que implica numa responsabilidade também para o homem que precisa reposicionar-se frente a esses novos tempos e a outras exigências. Ambos precisam se responsabilizar e se ajudar em prol de um modelo de vida mais consciente e saudável, onde estão sendo desafiados a reverem seus padrões comportamentais, princípios e hábitos de vida. 

Os filhos podem nos ensinar mesmo antes de nascer. Casais com dificuldades para gerar uma criança estão sendo oportunizados por esse "sintoma contemporâneo" - enquanto sinalizador dos tempos hodiernos e das novas exigências e desequilíbrios da sociedade moderna - a refletirem sobre a sua saúde, comportamentos, valores e estilos de vida, mas não apenas do ponto de vista biológico, mas sim também a partir de uma perspectiva interior, emocional, psicológica, espiritual e existencial.

Um sintoma não é algo que vem para pura e simplesmente nos incomodar, impedir nossos planos de vida e sonhos, mas sim para nos transmitir uma mensagem numa linguagem que nos chame a atenção. Um sintoma não deve ser combatido, mas lido, interpretado e não só do ponto de vista físico e racional, como pensa a maioria, mas também em sua dimensão inconsciente, afetiva, anímica, espiritual. 

Um sintoma precisa ser tornado consciente e nos levar a ações de mudança. A mensagem precisa sair da sombra e para isso é preciso encarar-se, admitir as próprias contradições, como por exemplo: “Quero ter filho, mas não me permito tirar um tempo pra mim do trabalho. Preciso ganhar mais e mais dinheiro. Tenho medo de fracassar.” E ao decidir confrontar as contradições, intercambiá-las por iniciativas mais saudáveis de acordo com as próprias possibilidades: “Posso rever hábitos e despesas e disponibilizar mais tempo para a vida pessoal, afetiva e a qualidade de vida.” Crianças precisam pais que se organizem para estarem presentes, não necessariamente em quantidade de tempo, mas em qualidade. Crianças precisam de pais mais conscientes que as cuidem com amor. E amar é cuidar e dar limites. Para dar amor, portanto, é preciso amar-se e dar-se limites saudáveis. Pais mais conscientes são aqueles que se cuidam e aceitam o desafio da vida, das emoções, que encaram as suas imperfeições e fragilidades ao invés de viver de conveniências e dissimulações frente às demandas do sistema dominante. 

É claro que diante da opressão do sistema e dos desvarios da maioria ainda existe muito desequilíbrio ou avanço a ser feito nesse sentido e muitos desafios e aprendizados pela frente tendo em vista as dificuldades práticas enormes tanto de homens, quanto de mulheres para encontrar equilíbrio entre o seu ser interior e exterior, ou ainda, entre as dimensões pessoal e profissional de suas vidas e a integração de aspectos femininos e masculinos em seu psicológico e espiritual. No entanto, de nada adianta esperarmos por mudanças sociais quando compete a nós fazê-las acontecer em nossas vidas. Esse desafio é de todos, pois o sistema somos nós e não só os outros. Não é possível mudar os outros, nem o sistema, mas sempre é possível mudar a nossa relação com os outros e com o sistema. É preciso assumir a auto-responsabilidade.

A psicoterapia como qualquer outra ajuda terapêutica digna e fundamentada torna-se então um espaço de confronto e aprofundamento dessas interconexões entre o pessoal e profissional de uma maneira mais refletida e consciente, levando em conta a necessidade do autoconhecimento tanto para homens, quanto para mulheres, maridos e esposas ou casal em suas várias responsabilidades, atividades, compromissos e tensões com o meio social e suas exigências. 

Além disso, na perspectiva espiritual de um inconsciente profundo e transpessoal, que transcende nosso ego e identidade social, sendo repositório de memórias passadas, arquetípicas, transgeracionais, ancestrais e coletivas, a causa de um problema também pode estar em algum de nossos padrões de comportamento condicionados que apenas reencenamos no presente de acordo com as várias conjecturas da contemporaneidade e cuja psicodinâmica pode ser acessada e trazida à luz da consciência presente através da regressão que consegue alcançar e reestruturar esses padrões subconscientes com precisão e efetividade.

É possível reconfigurar esses enredos ou lugares/papel registrados no inconsciente e vividos como sofrimento ou conflitos na atualidade, redefinindo crenças limitantes, liberando cargas emocionais obstrutivas a meta terapêutica, reencontrando assim um sentido mais íntimo e pessoal de aprendizado e crescimento no AMOR, numa jornada de autodescoberta que pode ser ao mesmo tempo impactante e reveladora, dolorosa e libertadora, desafiadora e edificante, da "dor ao êxtase”, como num parto onde é preciso dar a LUZ a si antes, para que então se possa cumprir essa sagrada missão de ser mãe ou pai de forma mais cônscia e capacitada a esse desafio, calejada pela regeneração interior, pois que renascida e renovada para o AMOR.


sábado, 11 de julho de 2015

Do ativismo social à autoconsciência

"Livra-te desse desânimo, levanta-te e luta. Essa auto-piedade e auto-indulgência são indignas da grande alma que és.”  (Bhagavan Krishna no Bhagavad Gita)

Se a sabedoria está em buscarmos distinguir entre a ação e a não-ação, conforme preconizado pela essência das grandes tradições espirituais da humanidade. E se a ética ou a virtude moral está em encontrarmos um meio termo entre a ação e a emoção, como já dizia Aristóteles, então fica difícil acreditar em ativismo social sem autoconhecimento ou no intelectualismo sem desenvolvimento afetivo, tendo em vista que precisamos antes e ao mesmo tempo nos ocupar com a nossas próprias contradições e exercitar uma consciência sensível e integralizadora que seja capaz de amar e se solidarizar buscando a pacificação dos contrários fundamentalmente dentro de si.

Portanto, sem a inteligência emocional, o sentir que nos conduz e nos liga com a inteligência espiritual, nossa dimensão de valores, de sagrado e de sabedoria amorosa, a única coisa que o intelecto dissociado faz é nos jogar no vazio existencial da nossa própria demagogia. E com PhD e tudo se for o caso como podemos constatar pela falência das utopias políticas, filosóficas, cartesianas e no niilismo predominante no pensamento ocidental.

É preciso ir além, acionar outras funções universais de nossa psique que não só a razão, ir consciência adentro, abrir espaços, novos caminhos interiores, acionar os circuitos da intuição, das emoções, do sentir, da imaginação, da quietude e do silêncio, então, em direção à ação social.

A primeira grande alienação do ser humano é a de si mesmo, pois é assim que nos rejeitamos, abandonamos, desamparamos, também rejeitando a nossa sombra, os nossos próprios avessos ou idiossincrasias, perdendo de vista o nosso potencial para a inteireza e para a prática de uma solidariedade mais genuína. 

Optamos desse modo pela falta de aceitação de nossas negatividades devido a falta de coragem e honestidade em reconhecer o mal também como parte de nós mesmos, nos iludindo até as últimas consequências e mais além; mentindo para nós mesmos, negando os nossos próprios defeitos e traços fardos de caráter ou os aumentando e projetando nos outros porque isso é sempre o mais fácil de se fazer.

Entregues aos nossos conflitos internos e de relacionamentos, ou seja, aos nossos desafetos e dificuldades interpessoais que tentamos encobrir na mesma medida em que preferimos nos prender em idealizações de perfeição, vamos exigindo demais de nós mesmos e dos outros, sem nos perceber cada vez mais queixosos, vítimas e terceirizadores de responsabilidade. 

Outrossim, também quando preferimos permanecer demasiado relaxados, “de boa”, distraídos, inertes, acomodados, embotados. Ou vivendo “sedados”, seja por medicação, drogas ilícitas, televisão, mundo virtual, jogos, fofocas, futilidades, enfim, vícios e compulsões de qualquer tipo, tudo o que estiver ao alcance e disponível para não termos que nos aperceber de nossa parte de responsabilidade pelo que vai mal em nossa vida e a nossa volta. Tudo para não sentirmos, principalmente, para não estarmos presentes. Temerosos até mesmo da quietude, evitando todo e qualquer tipo de solitude.

Usamos se preciso toda a racionalização e erudição que estiver ao nosso alcance para continuar fugindo de nossos afetos e sentimentos ruins, de nossa sombra, do que nos desagrada e é conveniente evitarmos, soterrando com pretextos, ilações, preconceitos, justificativas, teorias e mecanismos de defesa (até mesmo os ditos científicos) tudo o que simbolize alguma ameaça as nossas crenças mais obstinadas, não importando o quão egóicas ou limitadoras elas sejam, pois em sua defesa nos obrigamos a banir todo e qualquer vestígio ameaçador (que noutro viés poderia ser liberador) para a nossa inconsciência, sempre, claro, ignorando que as fronteiras criadas as quais nos apegamos mais atrelam do que separam, mais recalcam do que resolvem, mais engrossam os tabus pessoais e coletivos do que nos libertam ou transformam. 

Assim sofremos de uma ilusão de separação, vendo tudo de fora, sob o véu dicotomista da razão, cindidos entre o nosso mundo interno que permanece ignorado e atônitos com o que acontece a nossa volta, no exterior que não queremos ver como espelho, de modo que nos mantemos apartados de nós mesmos, bloqueados afetivamente, divididos internamente e polarizados numa base de inconsciência negativa, carente, que insistimos em não querer enxergar, não sentindo, nos ausentando de nossas próprias vidas.

E o pior: consideramos essa uma condição individual e social “normal”, apenas porque estamos habituados a isso, porque nos é propagandeado assim, já que o sistema se aproveita de todas essas nossas fraquezas íntimas de modos que nem sequer queremos imaginar, e também porque de nossa parte convém nos acomodarmos, pelo menos até nos defrontarmos com algo que nos chacoalhe por inteiro ou abale nossas rígidas estruturas, aquelas mesmas que teimamos em fingir ser sólidas e inexpugnáveis. 

E assim só enxergamos a metade da realidade. A metade que nos convém. Enquanto os corruptos, sociopatas e psicopatas chegam ao poder e saqueiam as nações, a maioria quer ir levando a sua mesma vidinha normal de sempre, ou seja, sem mudar a si. Talvez a espera do herói, do salvador... Ou dos vingadores quem sabe, dado a cultura do ressentimento e de vingança em que vivemos.

A delusão é sempre o golpe que aplicamos em nós mesmos achando que podemos escapar do nosso lado escuro. Aos arquétipos inconscientes que se movimentam em nossa sombra, em nossa cegueira perceptiva, interessa iludir para manter a si mesmos e seus complexos, que também são os nossos complexos e assim reencenamos com eles mundos de dores e sofrimentos. Divididos. Fragmentados. Da ilusão a desilusão, sucessivas vezes... Até o dia em que exaustos pela “eterna insatisfação” finalmente venhamos a admitir a necessidade de todo o trabalho integrativo de tomada de consciência interior, aceitando unir pela prática gradativa e sistemática a razão ao sentir, as emoções, a sombra, ao inconsciente, ao silêncio e ao servir. 

No entanto, a maioria só quer mudanças desde que não tenha que se envolver e assumir responsabilidade, mas imediatamente exige ou espera que os outros operem mudanças em suas vidas, espera-se até, contra todas as probabilidades, que os demagogos e corruptos mudem e os sociopatas e psicopatas que enganam e se alternam no poder, aliviem para toda a gente, como se não dependesse de nós, ao menos em parte, aprender a não esperar tão passivamente (ou reativamente) se deixando dominar ou iludir por eles... servindo as forças a que eles servem como voluntários inconscientes, seja pela complacência ingênua que ainda os defende, seja pelo inativismo ou inoperância, ou ainda, através do ativismo "reativo" radical...

Esse ocorre quando bradamos contra eles nas ruas, na internet e noutros meios como se não bocejassem contra tais formas batidas e previsíveis de manifestação que são sempre o outro extremo do nosso "voluntarismo" conivente com o sistema quando esse nos convém ou favorece e que teimamos em não enxergar no dia a dia. E assim revoltamos-nos contra os corruptos da esquerda, conclamando ao poder os da direita, ou invocamos a troca de uma ditadura por outra: militar, populista, corporativa? Quem sabe alguma nova versão repaginada? 

Voltados apenas para o exterior, ignoramos que os totalitarismos se constroem, se renovam e sobrevivem de nossa cegueira interior, de nossa percepção errônea, de nossa prepotência irrefletida, do nosso vitimismo, de nossa divisão interna e do nosso apego racionalista às ideologias, aos conflitos de polaridades, onde na versão sócio-política, ora somos situacionistas, ora oposição, esquerdistas ou direitistas, nos digladiando, trocando acusações, empurrando as responsabilidades de um lado para o outro, a despeito de que a sombra da corrupção seja parceladamente de todos nós em maior ou menor medida. Só ignora isso quem ainda está no “raso” e não oportunizou-se tomar a coragem de "encarar-se" e ir mais a “fundo” no autoexame de sua própria consciência.

Enfim, bem rápido e urgente exigimos mudanças sociais... dos outros, claro. Mas o pior cego é o que não quer se ver. Pois, é pela nossa sombra que nos atingem.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Integrando a sombra: a difícil arte da inteireza


Segundo alegoria do sufismo, antiga tradição de sabedoria do oriente médio, conta-se que um homem sábio e astuto certa vez descobriu um valioso tesouro enterrado num túmulo do antigo Egito depois de muitos peregrinos e exploradores terem procurado durante um longo tempo sem encontrar. Todos até então seguiam o ponto indicado pela mão de uma figura esculpida em pedra e o que ninguém se dera conta antes é que era a sombra da mão da figura que indicava o lugar correto.

Nas filosofias religiosas orientais vamos contemplar essa mesma mensagem positiva sobre a sombra no simbolismo da “flor de lótus” nascida em todo o seu esplendor em terreno lamacento, bem em meio ao lodo. Sem ser prejudicada pela lama negrejante de onde brota, ao contrário, dela se utiliza para crescer, nos inspirando a olhar seu exemplo e reconhecer que mesmo em meio aos lugares mais improváveis e obscuros, algo puro e belo pode brotar de nós, nos possibilitando o crescimento.

“Embora sejamos levados a pensar que a sombra contenha apenas escuridão, conforme afirma Jung sua essência é ‘puro ouro’.” (Connie Zweig e Jeremiah Abrams [orgs.] em Ao Encontro da Sombra)

Aliás, para C.G Jung a sombra seria um núcleo inconsciente daquilo que foi reprimido ou herdado do passado, incluindo tendências, imagens, emoções, desejos, memórias e vivências que podem ser considerados incompatíveis e contrários aos padrões sociais, ou ainda, aquilo que consideramos primitivo ou inferior, bem como, o que negligenciamos, podendo nesse sentido também ser fonte de vitalidade, assertividade e criatividade.

Paralelamente, a título de curiosidade, vamos encontrar nos dicionários um conceito de sombra descrito mais do ponto de vista físico: como região escura formada pela ausência parcial da luz, proporcionada pela existência de um obstáculo, ou ainda, pela interceptação da luz por algum tipo de corpo opaco, que é sinônimo do que é denso, lúgubre, obscuro, maculado, pusilânime, lúrido, oculto. O interessante é que a sombra pode mudar de posição conforme a origem da luz e teria natureza ilusória, pois resultaria tão somente da ausência da luz, cumprindo função de fazer contraste.

Assim a sombra nos proporciona a experiência da dualidade tanto em termos físicos, quanto psicológicos e porque não dizer, espirituais. Tudo o que é criado lança uma sombra, pois vivemos uma dialética existencial. E não existiria a experiência (ou a noção) de luz sem sombra, de bem sem mal, de alto sem baixo, e assim por diante; sendo inútil querer ignorar a interdependência desses aspectos.

Inclusive de acordo com preceito encontrado em várias tradições de sabedoria de que “assim como é o macrocosmos é o microcosmos”, o Universo, de modo similar ao ser humano, também tem um lado escuro. Essa faceta misteriosa do Cosmos só pode ser constatada de modo indireto, pois ninguém sabe ao certo o que é, mas a sua existência verifica-se pelo fato das galáxias se manterem juntas gravitacionalmente na escuridade do espaço. Entre as inúmeras hipóteses, a mais aceita atualmente nos círculos científicos é de que 73% do Universo é composto de energia escura, 23% de matéria escura e somente 4% de matéria visível, composta por galáxias, planetas, estrelas, nós, etc. Em suma, 96% do Universo é constituído por uma enigmática escuridão.

Isso dá o que pensar e nos remete ao análogo da vastidão do inconsciente, daquilo que ainda é oculto de nós, ou desconhecido, num espaço de interface entre a cosmogonia e a ontologia.

Nesse preâmbulo ontológico do ser ao vir-a-ser, bendita sombra essa que contém por nós todas as nossas negatividades, tudo o que negamos, tudo o que não queremos ver em nós mesmos, nem sentir, cada pedacinho de desamor, de auto repulsa, todo o mal que ignoramos, nos polarizando, até estarmos dispostos a uma profunda revisão de consciência e ao gradativo acolhimento do nosso lado escuro.  

Portanto, nós seres humanos num certo sentido também somos carentes e sofremos pela falta de aceitação da nossa própria sombra, pois sem ela vivemos divididos, incompletos, dissonantes, como antípodas de nós mesmos. Sem a sombra que dá relevo a nossa luz, abdicamos de nossa inteireza, pois negar a sombra, é também negar a si a possibilidade de uma luz ampliada pela lucidez transfigurativa que advém da integração do conflito dos opostos dentro de nós. Essa contraposição sombria tem influência sobre as nossas vidas, quer queiramos ou não, atuando como parte constituinte e necessária ao nosso crescimento, sendo tudo aquilo em nós e na nossa natureza profunda, até inferior ou primitiva que se opõe ao amor e que ao ser transformado, como na analogia da flor de lótus nascida na lama, pode se tornar amor.

Assim, a jornada de autodescoberta rumo à inteireza se dá quando corajosamente aceitamos sentir, mesmo o que é negativo à primeira vista, para poder transformar e crescer. É quando reconhecemos que há sempre uma mensagem sagrada a ser lida nas dificuldades pessoais, nas relações, nos problemas, nas doenças e nas crises inerentes a nossa condição existencial e que nos oferecem a oportunidade de mudanças e crescimento no amor.

Aceitar a sombra é admitir com honestidade o negativo em nós e abrir espaço a inteireza, a integração dos opostos em nosso interior que concilia a fragmentação do nosso ser e expande nossa consciência, aumentando a nossa sabedoria e a nossa capacidade de amar, incluir e solidarizar.

No coração da sombra existe a luz. E no coração da luz existe a sombra. A experiência do ser é a experiência do círculo que mantém os dois juntos.(…) Tornar-se adulto é passar da idade dos contrários para a idade do complementar, para um outro modo de olhar as coisas. (…) Se em vez de rejeitar ou negar alguns elementos de minha vida obscura, sou capaz de acolhê-los, torna-me-ei mais inteiro.” (Jean Yves Leloup em Além da Luz e da Sombra)

Em contrapartida, quanto mais a negamos a sombra, mais retroalimentamos nossas profundas carências e desarranjos mentais e emocionais que carregamos num nível inconsciente, nossas psicopatologias, que impressas no corpo, tornam-se doenças e manifestas na vida, atraem infortúnios ou nos mantém débeis para enfrentar as adversidades.

Pelo que percebo em geral a dificuldade de aceitação da sombra decorre da não aceitação do mal na vida como uma responsabilidade também pessoal, daquilo que tendemos a ver fora e a não reconhecer dentro de nós.

“Se entendemos então que o mal habita a natureza humana independentemente da nossa vontade e que ele não pode ser evitado, o mal entra na cena psicológica como o lado oposto e inevitável do bem. Essa compreensão nos leva de imediato ao dualismo que, de maneira inconsciente, se encontra prefigurado na cisão política do mundo e na dissociação do homem moderno.” (C.G. Jung em Presente e Futuro)

Tenho acompanhado ao longo desses anos o quanto é difícil para as pessoas de maneira geral, até mesmo aquelas que se dizem mais espiritualizadas, o confronto com as suas sombras. Impressiona como almejam evoluir sem um trabalho sério, sistemático e mais aprofundado a esse respeito e como podem cair fácil em armadilhas sombrias sem sequer se darem conta, acreditando estarem muito avançadas ou bem resolvidas em seu caminho espiritual, de luz, de cura, ou como queiram chamar.

Quando dotadas de intelecto privilegiado então, nem se fala, mais sofisticados podem ser seus modos de defesa e auto-engano. “Quanto mais inteligente e culto for alguém, tanto mais refinado é o modo que emprega para mentir a si mesmo.” (C.G. Jung em Desenvolvimento da Personalidade)

Mais preocupante ainda na busca espiritual é quando as pessoas se imaginam isentas e protegidas da sombra pelo fato de estarem seguindo algum tipo de tradição, linhagem, mestres, gurus, metodologias da moda, instituições famosas, personalidades ilustres, movimentos eco-politicamente corretos, comunidades nova era, etc., como se isso por si só lhes desse alguma garantia, imunidade ou salvo-conduto contra o lado sombrio. É justamente o oposto, onde há mais busca pela luz, sempre vai haver mais sombra a ser trabalhada e nem sempre nesses lugares, conforme seguidamente pode-se constatar, vai haver a disposição, a orientação ou até o suporte apropriado para um trabalho integrativo das sombras de cada um.

Ocorre que muitas vezes as pessoas buscam a espiritualidade, o autoconhecimento ou a cura de maneira ingênua, deslumbrada ou idealizada demais sem perceberem os muitos perigos e as armadilhas em que podem estar se metendo em sua ânsia e imediatismo por soluções. Muitos têm altas pretensões mas pouca disposição para o esforço (ou para aprender a discernir entre o esforço e o não-esforço). A maioria quer a luz sem ter de se comprometer em encarar a sombra. O que resulta disso é uma sombra que vai vir disfarçada de luz para agradar, num envolvente simulacro de luz, um ardil, uma luz ilusória, idílica, mistificada, adulterada pela insistente tendência que temos ao auto-engano. 

Alguns relatos no livro Ao Encontro da Sombra de Connie Zweig e Jeremiah Abrams (orgs.) são orientadores nesse sentido e exemplificam bem o observado acima. De modo equilibrado, sem invalidar os méritos dos movimentos abordados ou de seus proponentes, essa obra retrata várias facetas sombrias da busca espiritual inclusive no ponto de intersecção entre o oriente e o ocidente naquilo que muitas vezes é negado ou passa despercebido por muitos de seus adeptos.

Se no ocidente o uso excessivo da razão trouxe-nos a tendência a polarizar a realidade, no oriente, há certa tendência a se minimizar a importância do trabalho psicológico de base em prol de uma via contemplativa mais direta para além das polaridades. Tanto a tendência ao racional típica no ocidente, quanto a tendência mais contemplativa típica no oriente, bem como, seus entrecruzamentos mais contemporâneos tendem a subestimar e a querer escamotear o lado sombra.

Em todos esses casos a sombra reclama consideração e sempre apronta poucas e boas para estupefação dos implicados. Afinal, a dimensão racional é necessária, mas insuficiente, pois podemos usar essa mesma razão para justificarmos nossas negações, nosso desamor, nossas desumanidades, nossas cegueiras. Já uma via direta para a não-dualidade pode ser uma pretensão muito justa, nobre e elevada, mas sem as conversões afetivas da sombra, também pode resultar dentre outros problemas numa queda das “alturas” que se não invalida a “realização”, pode vir a macular dramaticamente o seu compartilhamento, causando enormes estragos individuais e coletivos, não raro, devido a dissociação entre o trabalho psicológico que inclui a personalidade (e seus personalismos e idiossincrasias) e a busca espiritual que deveria ter por meta transcender esses aspectos e não vilipendiá-los.  

Pois se a razão divide para conhecer e a contemplação abre espaço ao não-dual, o sentir interliga e o amor une, integra. Todas são funções indispensáveis para o nosso crescimento genuíno e exigem múltiplos modos de desenvolvimento.

Somos seres complexos e evoluir demanda muito trabalho, não há caminho fácil para o nosso aprendizado e quando houver, devemos desconfiar… Pode ser a sombra nos espreitando em mais uma de suas muitas artimanhas sedutoras.

“As pessoas (com o auxílio de convenções) resolveram tudo de maneira mais fácil e pelo lado mais fácil da facilidade; contudo é evidente que precisamos nos aferrar ao que é difícil; tudo o que vive se aferra ao difícil, tudo na natureza cresce e se defende a seu modo e se constitui em algo próprio a partir de si, procurando existir a qualquer preço e contra toda resistência. (…) Amar também é bom: pois o amor é difícil. (…) talvez seja a coisa mais difícil que nos foi dada, a mais extrema, a derradeira prova e provação, o trabalho para o qual qualquer outro trabalho é apenas uma preparação.” (Rainer Maria Rilke em Cartas a Um Jovem Poeta)

Quanto mais aceitamos nossas negatividades encarando suas lições, mais nos oportunizamos transformá-las em sabedoria amorosa. A cada etapa, mais amor. A cada estágio, maiores podem ser os obstáculos, pois entre luzes e sombras que se sucedem numa espiral de possibilidades desafiadoras está a graça de vivermos a vida com dignidade. Não fosse assim, seria o tédio, a monotonia e viveríamos inertes, petrificados enquanto a vida é fluxo e movimento. Por isso amar é também estar aberto ao aprendizado nas relações, a modos de exercitarmos a sabedoria, a compaixão e o próprio amor que só se aprende amando, corajosamente amando, na iniciativa do amor que inclui o aclarar de toda e qualquer tendência a espera, a recusa, a oposição ou a desistência de amar que trazemos conosco devido aos nossos condicionamentos passados. Amar, portanto, dá trabalho e é responsabilidade crescente.

“(…) O amor custa caro e nunca deveríamos tentar torná-lo barato. Nossas más qualidades, nosso egoísmo, nossa covardia, nossa esperteza mundana, nossa ambição, tudo isso quer persuadir-nos a não levar a sério o amor. Mas o amor só nos recompensará se o levarmos a sério.” (C.G. Jung em Civilização em Transição.)

Logo, a fim de nos tornarmos seres humanos mais plenos, inteiros e integrados, precisamos de razão e contemplação tanto quanto de apercebimento de emoções, de sentimentos, positivos e negativos, de luz, de sombra, enfim, de amor. Pois, para além da razão, está o que é transracional, o que é transpessoal, o que é sutil e nos sensibiliza, nos religa e humaniza. E ainda mais além: o não-dual, o Vazio Fértil, de onde emana a Presença…

É essa Presença que subjaz tanto as nossas alegrias, quanto as nossas batalhas do dia-a-dia, uma consciência de abertura ao encantamento e a beleza de viver, bem como, a  e a força para enfrentarmos as contradições, os antagonismos, as incertezas até os mais difíceis testes de impermanência ou transitoriedade da vida. 

Nesse transcurso para conciliar os contrários, integralizar os complexos e atender aos diversos requisitos do caminho do amor, podemos nos consorciar as mais variadas esferas de atuação em suas interfaces com a arte, a ciência e a espiritualidade, abrindo-nos a criatividade, aos saberes e a autoconsciência a serem exercitados em nossas relações pelos métodos que dispusermos.

Assim perfazemos nossa jornada existencial estando atentos ao nosso sentir em empreendendo o discernimento sensível entre a ação e a não-ação: a quietude, o silêncio, o repouso no amor, e então de volta a sua prática relacional, amando e sendo amados, exercitando a Presença, despertos para o nosso potencial interior de sabedoria amorosa, de CORAÇÃO e MENTE abertos a aprendizagem na VIDA.